Saber Emocional: Entre a Liberdade, a Escolha e a Decisão

Saber Emocional: Entre a Liberdade, a Escolha e a Decisão

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."

Sartre

As emoções sejam agradáveis ou desagradáveis, ambas nos dão a valoração da situação, na medida em que nos situam perante o vivido, perante o aqui (corpo) e o agora (presente). A vida humana desenvolve-se numa constante e complexa teia de tomada de decisões, nela estão envolvidos os afetos e sentimentos da agitação típica da vida diária. A vida humana desenrola-se numa intricada relação entre liberdade, escolha, angustia e decisão.

A liberdade para poder escolher angustia o Homem. Como ser lançado no mundo que é, ao se deparar com todas suas possibilidades, ele sente que se encontra invariavelmente em débito, considerando a sua plenitude idealizada para a vida. A liberdade está associada à escolha e à decisão. É importante que o Homem se compreenda enquanto ser em marcha, em trânsito, em constante mudança, o que significa que a sua condição é um vir — a — ser aquilo que nunca se completa.

A vida não nos permite ter tempo para avaliar todas as decisões exigidas de uma forma exaustiva e ponderada, por isso muitas vezes decidimos com base nas emoções e estados emocionais inconscientes. Apesar disso as emoções ajudam-nos a valorizar as decisões que tomamos. Existe um saber emocional inconsciente que nos é vital.

As emoções, através de um processo inconsciente, auxiliam-nos a considerar os seus efeitos e consequências, pois decidimos com base nas atribuições que fazemos das emoções (agradável/desagradável/ seguro/inseguro). No entanto neste processo existe sempre algo que nos escapa, os acontecimentos por vezes são independentes da nossa ação.

Pensando na citação que fizemos de Sartre, se não somos livres de escolher o que acontece connosco, podemos escolher a nossa atitude e a resposta que damos às situações. Como referem Mercê Conangla e Jaime Soler, talvez seja mais cómodo acreditar que não temos liberdade para agir, porque no fundo, não estamos dispostos a pagar o preço da liberdade, nem queremos assumir as consequências que dela surgem.

O que significa ser livre?

Segundo Rollo May, ser livre significa enfrentar e suportar a ansiedade, por esse motivo, sentir, pensar, refletir e analisar significa descobrir que não existe uma única via de ação, que não existem soluções fáceis. Todas as escolhas nos dão novas possibilidades e nos obrigam a fazer renúncias. Jaspers expressa claramente a necessidade desta abertura ao possível quando defende que nos encontramos num mundo de possibilidades inesgotáveis.

Escolher implica compreender a vida além do imediato. (Guto Pompeia). Ser saudável é poder ser livre num mundo de escolhas flexíveis. A maior parte dos erros que cometemos devem-se a indecisões. Temos de viver com a consequência das nossas decisões. A isto chamamos ter a capacidade de ARRISCAR, o que não quer dizer colocar-se em risco de uma forma inconsequente, mas poder reconhecer os seus recursos, as suas forças e vulnerabilidades e seguir em frente. Prosseguir a partir do seu lugar de vida, do que se pode e do que é.

“Rir é correr o risco de parecer tolo.
Chorar, é correr o risco de parecer sentimental;
Desabafar com alguém é arriscar o envolvimento;
Amar é correr o risco de não ser amado.
Viver é correr o risco de morrer;
Ter esperança é correr o risco de se dececionar;
Tentar é correr o risco de falhar”.

(atribuído a Séneca)

Estamos aqui, jogados e lançados no mundo, esta é a nossa condição. Não escolhemos isto, somos humanos, e ser humano é viver esta condição. Não está bem, nem mal, é a nossa condição de partida para o mundo. Esta é a condição de ser humano, algo já está dado à partida, e a pessoa que toma consciência desta condição pode sentir-se abandonada, no entanto temos que responder por isso. Embora não sejamos responsáveis diretamente, o que fazemos com a nossa condição é da nossa responsabilidade.

Para além de lançados no mundo, vamos adquirindo a consciência da nossa finitude, todo o dia novo é um desafio, mas é também um dia a menos em relação ao ponto de chegada (Guto Pompeia). Como diz a letra da canção “um dia a gente chega, noutro dia vai embora”. E perante a necessidade de escolher e decidir, se não necessitássemos de escolher nada ficaríamos parados, bloqueados, estagnados em vitalidade. Em última instância o que me leva a escolher e tomar decisões é a perceção de que o tempo está a passar, de que não temos todo o tempo do mundo. Temos este, o desafio é que o possamos viver e partilhar.


Fotografia | Vítor Fragoso

Sugestões de leitura |
• Ferreira, V., & Sartre, J. P. (1961). O existencialismo é um humanismo. Bertrand Editora.
• Jaspers, K. (1998). Iniciação Filosófica, Lisboa. Portugal, Guimarães Editores.
• Maurício de Carvalho, J. (2006). Filosofia e Psicologia: o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
• Pompeia, J. A., & Sapienza, B. T. (2011). Os dois nascimentos do homem: escritos sobre terapia e educação na era da técnica. Rio de Janeiro: Via Verita.

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