Guerra do Mirandum: quando a fronteira ardeu em Miranda do Douro

Guerra do Mirandum: quando a fronteira ardeu em Miranda do Douro

Mirandum, a “guerra fantástica” que abalou as terras de Miranda do Douro...

O som das gaitas-de-fole mirandesas continua ainda hoje a troar nas arribas do Douro como um eco remoto de outros séculos. Uma solenidade antiga, quase telúrica, como se o próprio vento da fronteira tivesse aprendido a dominar o fole e o ponteiro. Pelas ruas de Miranda do Douro persistem igualmente os pauliteiros – de Miranda e das terras cercanas de Palaçoulo, Duas Igrejas ou Constantim –, herdeiros de rituais ancestrais de guerra e comunidade, as pesadas capas de honra mirandesas que parecem transportar o inverno inteiro do planalto às costas dos homens que a memória guardou, e a imponência austera da Sé Catedral de Miranda do Douro, guardiã do célebre Menino Jesus da Cartolinha, pequena imagem barroca carregada de devoção popular e ternura humana.

Com uma identidade profundamente moldada pela fronteira, pela resistência e pelo peso da História, Miranda ainda se deixa guarnecer pelas muralhas suspensas sobre os desfiladeiros do Douro Internacional, conservando ainda hoje a gravidade de uma velha sentinela que viu passar guerras, invasões e tragédias. E foi precisamente entre muros, a 8 de maio de 1762, que ocorreu uma das páginas mais dramáticas da história transmontana: a destruição parcial da fortaleza durante a chamada Guerra Fantástica, episódio que o povo mirandês eternizou como “Guerra do Mirandum”.

O conflito integrava a Guerra dos Sete Anos, gigantesco confronto europeu que envolveu algumas das principais potências do século XVIII, motivado por disputas territoriais e coloniais. Na sua obra “A History of the English-Speaking Peoples“ Winston Churchill classificou este enfrentamento como a "verdadeira" Primeira Guerra Mundial. 
No desenrolar dos acontecimentos, Portugal tentava preservar a neutralidade, mas a secular aliança com a Inglaterra acabaria inevitavelmente por arrastá-lo para o centro das tensões continentais. Espanha e França exigiam o rompimento luso com os britânicos, mas D. José I recusou. Pouco depois, tropas espanholas atravessavam a fronteira portuguesa.

Apesar da dimensão militar da campanha, a guerra ficaria marcada por movimentações confusas, escassas batalhas decisivas e enormes dificuldades logísticas, razão pela qual recebeu a alcunha jocosa de “Guerra Fantástica”
Em Miranda, porém, nada existiu de fantasioso, já que foi na defesa deste secular povoado amuralhado que o “martelo” da confrontação mais se fez sentir.

A cidade desempenhava então um papel estratégico fundamental. A sua fortaleza dominava grande parte do Nordeste transmontano e constituía um dos principais bastiões defensivos portugueses junto da fronteira. As populações raianas conheciam bem a dureza destes conflitos. Ao longo dos séculos, aquelas terras viveram cercos, pilhagens e sucessivas invasões.
Na primavera de 1762, o ambiente tornou-se pesado. O medo espalhava-se pelas ruas estreitas da velha praça-forte à medida que o exército espanhol se aproximava. Depois chegou o desastre.
Durante o assédio militar, um projétil atingiu o paiol de pólvora da fortaleza, provocando uma explosão devastadora. O estrondo terá sido ouvido a enorme distância. Parte significativa das muralhas colapsou, edifícios ruíram e centenas de pessoas (cerca de 400 reza a maioria das crónicas) morreram soterradas sob pedras e chamas. Miranda afundou-se no caos.

O desastre do paiol  extravasou os limites de uma simples derrota militar. Aquela detonação transformou-se numa ferida profunda da memória coletiva mirandesa. A cidade nunca recuperaria plenamente o protagonismo político e defensivo de outros tempos. O castelo destruído tornou-se símbolo de sofrimento, perda e resistência.
Talvez por isso a tragédia tenha sobrevivido tão intensamente no imaginário popular, com o povo a transformar a dor em versos,  guardando-os na forma cantada através de uma velha composição na ancestral “lhéngua” mirandesa, eternizado nos dias de hoje pelo grupo de música tradicional Galandum Galundaina:

“Mirandum se fue a la guerra,
Nun sei quando benerá…”

A canção encontra-se associada precisamente à Guerra do Mirandum e possui uma melancolia profundamente tocante. Naqueles versos simples parece ouvir-se a voz das mães, das esposas e das famílias que viam partir os seus homens sem saber se regressariam.

“Nun sei quando benerá…”

Nessa frase cabe toda a angústia das terras de fronteira. E talvez seja precisamente aí que reside a singularidade de Miranda do Douro, cidade que não preserva apenas muralhas antigas, monumentos históricos ou a devoção ao “seu” Minino da Cartolinha. Conserva uma identidade cultural raríssima, feita de interioridade e língua própria, aerofones que “acompanham o Senhor”, danças guerreiras, devoções populares e reminiscências comunitárias. Mesmo perante a destruição, a cultura mirandesa resistiu.
Mais de dois séculos depois, a Guerra do Mirandum continua a ecoar sobre as escarpas duras do Douro. O vento percorre ainda as muralhas sobreviventes como se transportasse fragmentos daquela explosão distante. E quando o silêncio cai, finalmente, sobre o interminável planalto mirandês, quase nos parece possível ouvir, muito ao longe, a velha cantiga popular:

“Mirandum se fue a la guerra…”


Gostou do texto? Deixe abaixo a sua reação e comentário... smiley


Ver também |

Portugal e Espanha reforçam laços no desporto olímpico

Portugal e Espanha reforçam laços no desporto olímpico

 

Bolos saudáveis: como fazer bolos caseiros com menos açúcar

Bolos saudáveis: como fazer bolos caseiros com menos açúcar

Pronto para a próxima aventura? Escolhe alojamentos com o Selo Draft World Magazine e viaja com confiança! ✈️ Reserva já!