Uma Política por inventar

Uma Política por inventar

Falar de Política, no seu sentido original, é falar de relações humanas, daí a sua íntima relação com a Psicologia. É a partir desse lugar de relação que vos falarei.

A Política surgiu na Grécia Antiga, decorrente da necessidade de refletir sobre o bom governo da cidade. Dela esperava-se a promoção do bem-comum — esse seria o seu bom fruto. A prática antiga alicerçava-se claramente em três pilares: a razão, a ética e a prática. Articulava pensamento, relação ética e um fazer consequente, em concordância com essa base fundante.

O que estava em questão era, por um lado, como bem gerir os recursos disponíveis, como cuidar dos bens comuns e como os distribuir de forma equitativa e justa. Por outro lado, era necessário considerar a sua face complementar: a ética, não como uma elucubração meramente teórica, mas como dimensão profundamente relacional e fundadora das relações humanas. Falamos de uma ética que se faz ato no agir singular, humano. Uma ética da relação.

A reflexão sobre o caminho para o bem-comum, que vem de tempos imemoriais, mantém a sua contemporaneidade. Chega teimosamente até nós como uma brisa primaveril do passado, como uma marca que não deixa de preservar a sua fragrância. Uma vez despertos pelo seu perfume, somos inspirados a fazê-la chegar a mais pessoas, para que acordem da dormência atual em que se encontram.

No início, a Política referia-se às cidades-Estado. Tratava-se de uma prática assente numa democracia em estado nascente. Somos herdeiros dessa tradição, embora a sua semente ainda esteja aquém de dar o seu melhor fruto. Vivemos uma época em que é urgente lavrar o terreno da convivência; torna-se necessário cuidar do solo humano, pois só aí ela se funda.

No tempo presente, o modo de ser humano revela-se na aridez, no deserto do vivido. Apresenta-se como um “deserto do Real”, para usar a expressão do filósofo esloveno Žižek: simulacros, imagens e virtualidades que não se materializam em realidades a viver e a transformar. Ficam retidas na inconcretude, permanecem no campo do espetro, perdidas na sombra que as oculta.

No entanto, e apesar disso, todos os desertos transportam oásis que se apresentam como vislumbre e anúncio de um horizonte de esperança. No caso da nossa humanidade comum, são proclamação de uma renovação possível, de uma humanidade renascida — uma nova Renascença. Para tal, urge preservar, cuidar e multiplicar as sementes, sem descurar o solo — o coração humano — o centro relacional, o lugar de todas as revoluções, terreno fértil para todas as re-evoluções.

Hoje experimentamos a ferocidade dos extremos, a ignorância dos dualismos — Eu e o Outro — um Outro distante, não reconhecível, dissemelhante. Vivemos num mundo onde apenas se reconhece o reflexo do mesmo: o mesmo encerrado narcisicamente na saturação do seu sentir, do seu pensar e do seu agir.

Os novos Nárcisos são aqueles que se inebriam com o seu próprio perfume, aqueles que não se enriquecem na múltipla fragrância da diversidade. Para estes, aquele que não reflete o que pensam, o que fazem, o que sentem, é um estrangeiro, irreconhecível. A relação narcísica é uma relação de pontes quebradas, onde já não circula o livre trânsito dos afetos reciprocamente reconhecíveis. É um trânsito sem regras, subvertidas pela arrogância de um Narciso insuflado, grandioso.

Com pontes quebradas, radicalizam-se os extremos, cada um no seu lado, perdidos que estão da rede unificadora e complementar que os une. Urge uma reconstrução, uma renovação de vínculos. Uma nova edificação dos pilares e dos elos que nos humanizam, porque possibilitam que o diálogo circule, que a conversa se instale, que os encontros aconteçam.

Perante isto, em que apostamos? Apostamos na reconstrução de solo firme, que nos permita uma segurança confiável. Um solo seguro que abre caminho aos possíveis, ao sonho-projeto que nos sustenta num caminhar futuro. Pelo possível, vislumbramos horizontes com rosto humano — um rosto que é face inteira de uma unidade plural. Olhamos e vemos a lonjura. Caminhamos.

Utópico? Não. O que é a utopia senão a força de caminhar junto? Seguros nos passos, seguramente mais próximos. Não iguais, não os mesmos — diversos. Humanos, renovadamente humanos. Anuncia-se, assim, o primeiro dia do mandato da esperança — um laço que une a espera e o caminho conjunto.


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