Das Origens à Devoção: A História da Semana Santa em Portugal

Das Origens à Devoção: A História da Semana Santa em Portugal

Origens Históricas da Semana Santa em Portugal...

A Semana Santa é o período mais importante do calendário religioso católico. Apesar de, em Portugal, nos anos mais recentes, ter perdido fulgor para a quadra natalícia e para os Santos Populares, em cidades como Braga e Viana do Castelo, Loulé, Óbidos ou mesmo nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, a Semana Santa resiste como uma das solenidades de maior tradição.

Desde que a Humanidade começou a prestar culto a divindades, o acto de reflexão interior, meditação ou simples recolhimento fez sempre parte desses rituais. A Quaresma — vocábulo nascido do latim quadragesima, os quarenta dias de preparação cristã para a Páscoa — e a Semana Santa são, ainda hoje, guardiãs dessas práticas de recato interior, sobretudo para aqueles que procuram o contacto espiritual com Deus e com o Eterno Mistério.

Mas, como todas as práticas, também a Semana Santa tem uma história, um percurso que importa explorar, assinalando os seus usos e costumes, sem esquecer as artes e ofícios intrinsecamente ligados às modulações da vivência religiosa.
Vivenciada a partir de uma cultura eminentemente judaico-cristã, a Semana Santa enraizou-se no território desde os primórdios do Cristianismo.

As origens clássicas da Páscoa remontam ao século IV, quando o imperador Constantino legalizou o culto cristão, permitindo à Igreja celebrar abertamente a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Um testemunho fulcral desse tempo é o relato da peregrina Egéria (ou Etéria), uma mulher da antiga Galécia, possivelmente oriunda de Bracara Augusta (antiga designação romana de Braga), que viajou à Terra Santa entre 381 e 384.

No seu Itinerarium Egeriae, descreveu em detalhe as celebrações pascais em Jerusalém, incluindo a procissão de Ramos, que recriava a entrada de Jesus na cidade santa — modelo que viria a inspirar rituais semelhantes em vários pontos do mundo cristão.

Acredita-se que os peregrinos que se deslocavam a Jerusalém transportaram esses costumes vividos nos Lugares Santos para as suas terras de origem.

Diversos estudos apontam para a possibilidade de a procissão de Domingo de Ramos ter surgido precisamente quando grupos de cristãos, regressando da Palestina, passaram a repetir os gestos testemunhados, percorrendo caminhos com ramos nas mãos, evocando os passos de Cristo. Este costume, inicialmente pontual, foi sendo gradualmente incorporado nos ritos quaresmais e, no final da Idade Média, já integrava plenamente as celebrações da Semana Santa.

Embora existam poucas fontes sobre as formas assumidas pela Semana Santa no Portugal medieval, é certo que a devoção à Paixão de Cristo foi crescendo ao longo dos séculos, impulsionada pela influência das ordens religiosas mendicantes.

No século XVI, multiplicaram-se as Irmandades da Misericórdia e confrarias, que promoviam procissões penitenciais dos Passos de Nosso Senhor. Em Braga, por exemplo, encontra-se documentada, desde 1513, a Procissão do “Ecce Homo” e, desde 1597, a Procissão dos Passos, o que evidencia a existência de celebrações já estruturadas no período quinhentista.

Foi também na sequência do Concílio de Trento que muitas das encenações e rituais da Semana Santa adquiriram o esplendor barroco que ainda hoje os caracteriza, combinando liturgia oficial com expressões de religiosidade popular.

Importa ainda referir a tradição de não tocar sinos entre a Quinta-feira Santa e o Domingo de Páscoa, em sinal de luto pela morte de Cristo. Nesse período, as badaladas são substituídas por instrumentos como a matraca dos farricocos de Braga, o triquelitraque de Afife (Viana do Castelo) e outros artefactos de madeira, um simbolismo sonoro que persiste em várias regiões do país.

Mas essa será matéria para futuras crónicas.


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