A Árvore de Natal da Gratidão que Ilumina Trafalgar Square

A Árvore de Natal da Gratidão que Ilumina Trafalgar Square

No coração da cosmopolita capital do Reino Unido erguem-se todos os anos as agulhas luminosas de um abeto norueguês. Um presente que chega do Norte desde os anos negros da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa, dividida pela guerra, descobriu que a solidariedade também podia viajar desde o fiorde até à “praça”.

Em dezembro, quando visitares Londres, pasma com a Bond Street e a Oxford Street, os armazéns Harrods, Selfridges ou Fortnum & Mason, encanta-te com Covent Garden ou diverte-te na Winter Wonderland, em Hyde Park. Mas, por favor, não olvides descobrir a Trafalgar Square, já que, por alturas do Advento e até ao fim do ano, há uma árvore icónica, oriunda das densas florestas de coníferas norueguesas, que, por esses dias, “faz companhia” à épica coluna onde se encontra o herói da Marinha Real britânica, Horatio Nelson. E, como em todas as tradições mais ou menos rebuscadas, há uma história por detrás desse “convívio”.

E começa em 1940, com a invasão da Noruega pelas forças do III Reich. O governo deste país nórdico refugiou-se em Londres e ali encontrou um porto seguro. Naqueles tempos sombrios, a cidade acolheu exilados, ouviu rádios clandestinas, conspirou pela liberdade a partir das antenas da BBC. Quando a guerra terminou, a Noruega decidiu que a memória dessa hospitalidade precisava de um símbolo vivo, algo que regressasse todos os anos para recordar ao mundo que os maiores gestos de gratidão e amizade podem brotar nas horas mais negras.

Mas vamos aos factos que a história nos devolve: no início de junho de 1940, a Noruega estava praticamente perdida. A ocupação alemã avançava sem piedade, e o rei Haakon VII, acompanhado do príncipe herdeiro, viu-se obrigado a embarcar no HMS Devonshire para fugir para a Grã-Bretanha. Londres tornou-se então o seu porto de exílio — de 1940 a 1945, quando regressou, em definitivo, a Oslo — e o lugar de onde começou a reorganizar as forças livres que ousavam ainda sonhar com a libertação da pátria nórdica.

Entre os que prestaram atenção ao que os noruegueses poderiam oferecer estava um homem que, anos mais tarde, moldaria o universo literário de James Bond: o comandante da Royal Navy, Ian Fleming. Antes de se tornar escritor, era assistente do Almirante John Godfrey, diretor da Inteligência Naval britânica. Fleming foi responsável por coordenar operações clandestinas em território setentrional ocupado. Eram missões de risco absoluto, com ataques noturnos em lanchas torpedeiras, com o fim de aniquilar navios inimigos, confundir o tráfego costeiro, destruir instalações estratégicas, capturar códigos e documentos.

A 30.ª Flotilha de Lanchas Torpedeiras Norueguesas, destacada nas ilhas Shetland — arquipélago sob bandeira escocesa — vivia nesse limiar. Foi desse pequeno arquipélago duro e ventoso que, numa manhã fria e chuvosa de 26 de novembro de 1942, cinco Dog Boats, rápidas e ferozes, partiram para mais uma dessas incursões. O mar revolto e o vento instável não impediram a missão: duas embarcações procurariam alvos na área de Flora, outras duas ateariam o caos ao largo de Askvoll, afundando navios inimigos, enquanto as lanchas 626 e 651, comandadas pelo tenente Bøgeberg, se dirigiam discretamente para uma ilha a sul de Bergen.

A bordo seguia Mons Klubben, marinheiro norueguês de carácter expansivo, duro, conhecedor da costa como quem traz o mar no sangue. Fugira para a Grã-Bretanha em 1941 para integrar a Marinha Real Norueguesa e tornara-se essencial para navegar nos fiordes. Com ele seguiam o Major Fynn, da Força Fynn, e o tenente Risnes, do 10.º Comando, que espalharam guardas armados pela ilha enquanto as tripulações erguiam mastros e camuflavam os barcos.

O objetivo era claro: preparar a Operação Cartoon, destinada a destruir a mina de pirita em Stord, um alvo vital na máquina de guerra alemã. Fynn partiu ao amanhecer, guiado por moradores locais num barco de correio. O reconhecimento que realizou acabaria por permitir o sucesso da operação, em janeiro de 1943, pela qual viria a ser condecorado com a Cruz Militar.

Mas, entre o som metálico das armas e a tensão dos motores, Mons Klubben teve um rasgo inesperado de humanidade. Sugeriu “libertar” algumas árvores de Natal da ilha e levá-las para Londres, para oferecer ao monarca norueguês. Um gesto simples. Quase pueril. Mas que, no meio da guerra total, devolvia aos exilados um fragmento de casa, de paz, de memória. As árvores foram guardadas como tesouros clandestinos e, assim que as Dog Boats regressaram a Lerwick, a aventura transformou-se em lenda.

O comandante Ned Denning, futuro diretor da Inteligência Naval, descreveu mais tarde a sequência final da história: pouco antes do Natal, tiveram de repatriar da Noruega um agente que chegara exausto, após uma viagem arriscada e quase suicida. Fleming, sabendo do que o homem tinha enfrentado, insistiu que merecia algo mais do que um simples debriefing militar. Organizou um jantar no mítico hotel Savoy — um luxo impensável numa Londres em racionamento — e até providenciou ingredientes raros para o chef.

É desta mistura improvável, entre espionagem, resistência, mares revoltos, códigos capturados, minas destruídas e uma árvore de Natal arrancada ao frio das florestas norueguesas, que nasce a tradição que hoje ilumina Trafalgar Square.

Assim nasceu a tradição “viking” de oferecer ao Reino Unido uma árvore de Natal, cortada nas florestas profundas perto de Oslo, escolhida com cerimónia e reverência. A primeira, em 1942, surgiu ainda como um tributo improvisado, mais tarde tornando-se, a partir de 1947, no ritual anual que hoje conhecemos.

Todos os Natais, a árvore é recebida como se regressasse de uma peregrinação. Ergue-se, magra e altiva, sob o olhar de Nelson, e as luzes que a percorrem seguem o estilo nórdico: simples, verticais, numa austeridade que convida à contemplação silenciosa.

No início de cada dezembro, o corte é acompanhado por autoridades norueguesas, estudantes e crianças que aprendem que uma árvore também pode contar a história de uma guerra, de um refúgio, de um agradecimento. Depois, já em solo britânico, a cerimónia do acender das luzes transforma Trafalgar Square num anfiteatro de inverno, onde o hino da amizade entre os dois países ecoa através de cânticos.

A árvore de Trafalgar Square suplanta, desta forma, a mera ornamentação natalícia. É um testamento vivo à memória de tempos difíceis e à coragem de manter pontes entre povos que partilham uma história comum, ora feliz, ora trágica. Um monumento sazonal que regressa todos os anos para nos lembrar que a História não se faz apenas com tratados ou batalhas, mas também com gestos aparentemente pequenos que, ao persistirem, se tornam maiores do que o seu próprio significado original.


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