Almeirim: onde a História se serve à mesa
Almeirim: onde a História se serve à mesa
Almeirim: onde a História se serve à mesa

Almeirim: onde a História se serve à mesa

— 1ª Crónica —
Terras de Pedra e Memória: uma viagem pela paisagem cultural do Ribatejo e Alto Alentejo ...

São duas regiões difíceis de explorar num verão abrasador, mas contam com destinos fundamentais a descobrir em tempos de estio. O Ribatejo e o Alto Alentejo são territórios onde a paisagem estende-se até ao infinito, entre lezírias e ganadaria, lendas esquecidas, tradições seculares e um património que não se esgota nos monumentos.

É precisamente por esse património, tantas vezes discreto e distante dos grandes circuitos turísticos, que me proponho caminhar nas próximas crónicas. Não apenas pelos castelos e pelas igrejas, pelos cromeleques e pelos palácios, mas também pelos lugares onde a memória continua a respirar no quotidiano das suas gentes, na gastronomia, nas romarias, nos relatos lendários, e na paisagem humanizada que o tempo foi moldando. Isto porque entre o Ribatejo e o Alto Alentejo há um país que conserva a cadência tranquila das lezírias do Tejo, a vastidão quase contemplativa das planícies alentejanas, o aroma de um pão acabado de cozer (que desde sempre foi o principal sustento e sinónimo de sobrevivência), o som das campainhas dos rebanhos (cada vez mais exíguos) e a hospitalidade de quem ainda sabe receber sem pressa, apesar da galopante desertificação das suas aldeias.

Inauguremos o périplo então pelo Ribatejo, mais especificamente por Almeirim.

À primeira vista, para quem chega vindo de um Norte urbanizado e cada vez mais estéril, parece apenas aquela cidade tranquila da lezíria ribatejana (que os filmes da ditadura teimaram em representar), onde a espuma dos dias quentes é passada à sombra, cadeira encostada a uma parede branca. Mas basta permanecer algumas horas para perceber que, por detrás da serenidade das ruas e da vastidão interminável dos campos, existe uma terra que foi residência de reis, cenário de decisões que mudaram o destino de Portugal e guardiã de uma das mais extraordinárias lendas gastronómicas do país.

A cidade (com apenas cerca de 22 mil almas) apresenta-se hoje tranquila, quase estática, mas nem sempre assim foi, e por aqui se decidiram alguns episódios fundamentais que marcariam o futuro deste cantinho europeu. 

A sua afirmação remonta aos primeiros anos do século XV. Em 1411, D. João I mandou criar uma coutada real (terreno dedicado à caça) e construir um paço régio, misto de palácio e castelo, que transformaria aquela povoação num dos lugares prediletos da corte, ao ponto de, séculos mais tarde, ser apelidada de a “Sintra de Inverno”.

Por aqui passaram D. João III (“O Piedoso”) e o “Venturoso” D. Manuel I. Este último manteve uma relação privilegiada com estas terras, mandando construir o Paço dos Negros da Ribeira de Muge. E foi igualmente em Almeirim que, em 1580, viria a falecer D. Henrique, último soberano da dinastia de Avis, num ano que seria decisivo para Portugal: em janeiro, o velho cardeal convocou as Cortes de Almeirim, procurando encontrar uma solução para a crise sucessória aberta após o desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Nada se resolveu e o nevoeiro não mais se levantou. Poucos meses depois, Filipe II de Espanha seria reconhecido como rei de Portugal, inaugurando sessenta anos de união ibérica.

Mas se a História alimenta a memória, as lendas dão fôlego à alma. E nenhuma é mais conhecida do que a da Sopa da Pedra, que conta como um frade (quem sabe peregrino a Santiago de Compostela)  chega esfomeado, afirmando ser capaz de produzir nutritiva receita apenas com uma pedra. Intrigados, os habitantes aproximam-se aos magotes. Um oferece feijão, outro uma farinheira, outro ainda um pedaço de toucinho. Aos poucos, todos participam. Quando a sopa está pronta, a pedra continua no fundo da panela, mas o banquete ganha contornos de obra coletiva.

Mas talvez o mais curioso desta narrativa é o eco que encontramos em vários países. Por exemplo, nos territórios anglo-saxónicos fala-se da Stone Soup. Nas nações escandinavas descobrimos a sopa feita tendo como ingrediente inusitado um prego. Já na imensa Rússia, ainda hoje se recorda a lenda do soldado que preparou uma sopa de machado. 
Hoje, esta iguaria bem forrada é um dos mais importantes patrimónios gastronómicos do vale do Tejo, reconhecido além fronteiras. No espírito de autêntica “embaixadora” de Almeirim, em 2005 foi inaugurada, no  centro da cidade (a poucos metros de emblemáticos restaurantes que fazem desta confeção a “especialidade da casa”), a escultura do frade da Sopa da Pedra, da autoria de Camilo do Ó.

Terra da sopa da Pedra

Mas não se pense que o que ver em Almeirim se esgota no momento em que termina o repasto (não são raros aqueles que se contentam apenas com este prato, supostamente introdutório para uma refeição mais completa, antes de seguir viagem), já que outras histórias e lugares há para explorar na quietude deste lugar. 

Junto ao antigo Paço dos Negros da Ribeira de Muge (do qual apenas resta o arco de entrada, fruto da destruição provocada pelo terramoto de 1755 e o consequente abandono do lugar), a tradição popular fala de uma moura encantada. Diz-se que surge em determinadas noites, penteando os cabelos e entoando cantigas misteriosas, enquanto guarda um tesouro escondido no subsolo do arco manuelino.

Lugar de enorme devoção para as gentes de Almeirim, a Ermida de Nossa Senhora do Calvário constitui outro dos elementos mais relevantes do património local. Construída na primeira metade do século XVIII, continua ligada às antigas procissões dos Passos e à cerimónia do Encontro entre o Filho e a Mãe, uma das manifestações religiosas mais sentidas da cidade, que todos os anos se repete no Domingo de Ramos.

E porque a história de Almeirim também se explora ao nível documental,  vale a pena explorar o Museu Municipal (fundado em 2012 como fiel depositário do antigo núcleo da Casa do Povo de Almeirim, datado de 1952), um espaço essencial para compreender a memória coletiva de Almeirim.


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