Ser Próximo: O desafio de cuidar do outro numa sociedade em sofrimento
O que é Ser Próximo? Quem é o meu próximo? Estas são perguntas que se repetem há milénios. A memória remota mais impactante é a parábola do bom samaritano, pronunciada pela força do verbo de Jesus, o Cristo. Tão atual! Tão desafiante! Penso que, como todas as grandes questões humanas é tarefa para a vida. Ser próximo é resultado culminante da nossa potencial humanidade. Fazermos-nos próximos, aproximarmo-nos do outro que se nos apresenta, eis a grande escalada.
Hoje, propomos-nos estabelecer um diálogo entre o proposto pela parábola e a psicologia humana. Na atualidade os desafios, como noutros tempos, instigam o ser humano a ir ao encontro daquilo que o caracteriza enquanto humano, a ir em direção ao rosto de humanidade que os seus gestos, atitudes e ações revelam de si. Integridade, fragmentação ou alienação? A resposta que damos determina o caminho a que nos destinamos.
Na contemporaneidade tem ecoado um crescente mal-estar que se desoculta em sinais e sintomas que ampliam o seu incómodo e sofrimento. Sinais e sintomas que pedem audição e escuta. O mal-estar é entendido como sinal e sintoma que resulta de um modo de ser e de se relacionar. Trata-se de uma forma de ser que se desvia da integridade, da inteireza, da concordância e coerência necessária ao ser do humano. Uma necessidade que pede firmeza no caminho da saúde, que pede coerência e concordância para ir rumo ao saudável. O mal-estar deriva de culpa, que decorre de uma tentativa de adequação e inclusão ao que o sujeito sente como pressão social, uma adequação que força, muitas vezes distante das necessidades daquilo que lhe é próprio e essencial. Esta conformidade desviante advém de uma repressão recorrente, onde se observa a existência de um afastamento crescente face à necessidade e ao desejo singular da pessoa em particular.
Vivemos a exigência de autonomia (cansado de ser o próprio — “ tudo eu”, “só eu”), o confronto constante com a incerteza e o potencial descarte e cancelamento. Sentimos o imperativo do desempenho óptimo, com a consequente autoexploração que frequentemente desagua em burnout (queimados pela desumanidade do trabalho). Sinais e sintomas que rapidamente viram ruído. “Barulho” que não suportamos, que não sustentamos, por isso medicamos. Medicalização, onde também o excesso e a desmedida fazem a sua morada. O medicamente sem acolhimento da história, sem receptividade para a escuta, sem reconhecimento do olhar, como dizia o meu professor Fernando Almeida (médico - psiquiatra), é cego, surdo e mudo.
Diz a parábola do bom samaritano “ (...) descia um sacerdote por aquele caminho. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.Também por lá passou igualmente um levita que, ao vê-lo, se desviou. Entretanto, um samaritano que ia de viagem passou junto dele e vendo-o, se moveu de íntima compaixão, aproximou-se, atou-lhe as feridas, levou-o para lugar seguro e cuidou dele (...)”. Observem o destaque que ganha o verbo ver, ele assume movimentos diferentes consoante a personagem que se apresenta.
Ver aqui é decisivo, como eu vejo a realidade que se apresenta, como eu a leio, há reconhecimento ou não, o que me move? A narrativa parabólica fala-nos de uma qualidade particular de olhar. A cena central da parábola é decisiva do rumo que deve levar a humanidade — “ e vendo-o, moveu-se de íntima compaixão”.
Na relação com o outro existe uma realidade que se apresenta, uma realidade afetiva, pautada pela emocionalidade. O outro apresenta-se como indivíduo, como alguém que pode ou não ser reconhecido como legítimo outro, como um ser de pleno direito. Pode ou não ser reconhecido como sujeito (detentor de uma subjectividade), como alguém pode ou não ser reconhecido como pessoa na sua humanidade, como próximo, como digno de cuidado.
O outro transporta sempre a sua realidade socio-cultural que é diversa, quando assim é, o desafio é sempre ver além das diferenças. Segundo Berenstein (2004), devemos ter sempre em consideração que na relação com o outro atuam em nós mecanismos de representação, de reconhecimento (presente ou ausente) e de repetição. Vejamos cada um destes mecanismos.
Representação ► represento o outro de acordo com a minha experiência, de acordo com a educação, de acordo com a matriz sociocultural que internalizei.
Reconhecimento ► só posso reconhecer aquilo que conheço, ou seja, só reconheço aquilo de que me é próximo. Se não conheço, não reconheço. Se não me aproximo a distância acentua-se ou perpetua-se.
Repetição ►todos temos tendência a repetir padrões internalizados pela família, pelas ideologias, pelas diferentes doutrinações. Se não desenvolvemos uma vivência de convivência livre e responsável não sentimos nem pensamos o outro em liberdade.
Na relação humana o desafio é sempre poder vir a ser outro com outros (Berenstein, 2004), e quando assim é, da repetição fazemos abertura e transformação. Somos seres em aberto, e assim continuamos na velhice. Ser em aberto é estar aberto para o caminho que a existência humana é. Neste sentido a vida humana desde a sua origem é um ensaio sobre o tempo que nos é dado a viver. Vivemos num intervalo, entre o nascer e o morrer, entre o chegar e o partir. E neste intervalo, somos atravessados pelo tempo, passado, presente e futuro.
Inspirados em Jacob Levy Moreno reconhecemos que o desafio é o de perante a realidade humana que se nos apresenta, por sua natureza, sempre diversa e plural, procurar o novo do novo, descobrir o novo no velho. E isso é tarefa de maturidade, é tarefa para a vida. Desenvolver movimentos de proximidade com a pessoa idosa implica reconhecê-la nas relações humanas, na troca afetiva. Trocas que acontecem no espaço do entre, no espaço intersubjetivo que é um espaço de fronteira, um espaço de trânsito, uma fronteira-contacto relacional.
Para a afetividade humana, fronteira é contacto.
Aqui falamos de uma fronteira-contacto, que quando saudável é encontro humano. O encontro, pensando em particular na relação de cuidado tão essencial nas relações humanas, desempenha as funções primordiais de acolher – hospedar, agasalhar, alimentar e transformar (afetos).
Este “estar com” envolve uma contínua e mútua aprendizagem, envolve crescimento através de uma relação de cuidado humano. Envolve uma relação humanista e humanizante. Quando são distantes as relações humanas são muros. Quando distantes não nos reconhecemos, não reconhecemos a nossa semelhança em humanidade.
Como afirmava o Papa Francisco:
“Quem constrói muros permanece prisioneiro deles. Os construtores de pontes seguem em frente.".
Sugestão de leitura | Berenstein, I. (2004). Devenir otro con otro(s): Ajenidad, presencia, interferencia. Buenos Aires: Paidós
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