Antes do 25 de Abril: o pacto secreto de “Grândola, Vila Morena”

Antes do 25 de Abril: o pacto secreto de “Grândola, Vila Morena”

Grândola, Vila Morena, a canção que foi pacto luso-galego contra as ditaduras ibéricas...

É uma daquelas canções universais da cultura portuguesa que extravasa ideologias e datas comemorativas. Um património imaterial inestimável que logrou galgar fronteiras. A composição “Grândola Vila Morena” ganhou eco com a revolução do 25 de Abril, mas a sua história, tal como os versos, foi escrita muitos anos antes. Sabia que foi em Santiago de Compostela que Zeca Afonso a cantou em público pela primeira vez?

Em maio de 1964, o já conhecido cantautor José Afonso passou por Grândola e atuou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (SMFOG), agremiação por muitos apelidada de “A Música Velha”. 

Conhecido pelas suas composições dedicadas à canção estudantil coimbrã, desde cedo o músico (nascido na freguesia aveirense da Glória, em 1929) ganhou a consciência de que a música podia ser uma arma contra a opressão, o artífice ideal para semear palavras de esperança naqueles que acreditavam haver mais vida para além da ditadura. Essa visão custou a José Afonso a liberdade, que se transfigurou em “Zeca”, apesar de, em público, e sob o olhar atento das autoridades afetas ao regime, assim não se apresentar. Fica até a curiosidade de ter chegado a utilizar uma espécie de pseudónimo, "Esoj Osnofa” (o seu nome ao contrário), com o fim de contornar a proibição de ser mencionado nos jornais da época.

Quando foi convidado a atuar naquela noite de 17 de maio na “Música Velha”, deixou-se invadir pelo espírito de “fraternidade” que se vivia naquela “terra” do distrito de Setúbal, habituado pela história a pelejas libertárias, construindo à sua volta uma aura de que em Grândola “é o povo que mais ordena”. Impressionado com os estados de alma que essa experiência orfeónica noturna lhe provocou, deixou-se inspirar pela atmosfera de solidariedade e, ao mesmo tempo, de resistência vivenciada em comunidade naquela vila do litoral alentejano, levando-o, quatro dias depois, a escrever uma carta aos dirigentes da SMFOG. 

Nesse manuscrito estava transcrito o poema “Grândola Vila Morena”, uma homenagem àquela coletividade e às pessoas que o acolheram. O próprio José Afonso deixou essa pista escrita, ao referir o texto como “pequena homenagem” à sociedade onde atuou também, naquele mesmo serão, o virtuoso intérprete da guitarra portuguesa, Carlos Paredes.

A transformação dos versos em composição polifónica chegou só em outubro de 1971, em França, aquando da gravação do álbum “Cantigas do Maio”, longe dos olhos e ouvidos da ditadura preconizada desta feita já por Marcelo Caetano. 

Foi então que o poema ganhou a espessura sonora que hoje lhe conhecemos, com arranjos de José Mário Branco e uma arquitetura coral que lhe deu cunho coletivo. A música abriu-lhe espaço, como se o texto, até ali, estivesse à espera de uma rua cheia de vozes para se fazer cumprir.

A primeira interpretação pública só aconteceria meses mais tarde (e também fora do solo português), a 10 de maio de 1972, em Santiago de Compostela, no recinto universitário do Burgo das Nações (onde hoje se encontra o Auditório de Galicia, paredes-meias com a Faculdade de Económicas da universidade compostelana), num ambiente ligado ao meio revolucionário estudantil. 

Parece um detalhe, mas importa bem mais do que aparenta, já que desta forma a canção atravessa uma fronteira que só o rio e a diplomacia reconhece.
Antes de se tornar uma senha de confirmação para um futuro melhor que havia de vir, “Grândola” firmou, entre povos irmãos, um “pacto” contra as ditaduras ibéricas.

Mas se foi no solo onde descansa o Apóstolo que a peça se deu a descobrir, o momento, em que “Grândola” se impôs de vez na memória histórica foi o que marcou os acontecimentos da revolução democrática, teve como palco o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 29 de março de 1974. 

No final do I Encontro da Canção Portuguesa, milhares de pessoas levantaram-se para a cantar em coro, sob a vigilância da censura, atónita por aquelas letras terem conseguido “saltar” o crivo do “lápis azul” e ganhar voz naquela multidão, ansiosa por uma manhã diferente.

Importa referir que a escolha como senha do 25 de Abril – a par com “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho – ficou a cargo de um dos “capitães de Abril”, Carlos de Almada Contreiras (capitão-tenente da marinha) e sabe-se também que “Venham Mais Cinco”, (também de Zeca Afonso), chegou a ser considerada, mas foi afastada por estar proibida pela censura interna da Rádio Renascença, emissora da Igreja Católica, onde seria transmitida a senha de confirmação do desenrolar dos acontecimentos. Assim, a decisão recaiu sobre “Grândola, Vila Morena”, que passou nos primeiros minutos da madrugada de 25 de abril de 1974, pouco tempo depois da composição representante portuguesa no Concurso Eurovisão da Canção ter servido de senha-rastilho.

Volvidos mais de cinquenta anos, ainda impressionam a mensagem e a composição melódica contidas naquela que é, unanimemente, uma das canções mais inesquecíveis de todos os tempos e que sempre ecoará, singularmente, em tempos onde a liberdade se encontre refém.

Zeca Afonso - Grândola, Vila Morena...


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