Entre a Crise e a Esperança: O Desafio de Reinventar a Humanidade

Entre a Crise e a Esperança: O Desafio de Reinventar a Humanidade

“Planificar a esperança”...

“Em tempos de incerteza e desesperança é imprescindível gerar projetos coletivos a partir dos quais se possa planificar a esperança em conjunto”

Enrique Pichon-Rivière.

É necessário inventar uma nova sociedade, uma sociedade alternativa. Como afirma Juan Mateos, a mudança não só é desejável como possível. Para que exista uma deriva revolucionária há que olhar a realidade de frente, tomar consciência da situação e fazer a opção correspondente, ou seja, realizar uma verdadeira transformação. Esta apenas se realiza quando uma ação libertadora se instala, para tal, urge deixar os velhos e enraizados padrões que resistem na mesmice. Padrões que descansam na teimosa atitude de sempre, já obsoleta, já caduca.

Não basta uma reforma ou a mudança nas instituições, só pela mudança de comportamento é que lá vamos. Falamos de uma mudança que apenas se traduz e concretiza quando as mudanças íntimas se manifestam em novas e renovadoras andanças comportamentais.

A mudança requer acima de tudo uma transformação pessoal e comunitária, uma atitude que permita uma nova relação humana. Falamos de uma mobilização que possibilite um novo projeto de humanidade, pois o atual definha e petrifica. No tempo que vivemos ainda não encaramos a mortificação a que o atual projeto (de desumanidade) nos destina. Ainda não nos atrevemos a fazer-lhe o funeral e a renascer em humanidade.
Aqui relembramos que o Homem na sua gesta é responsável pela história de si e de todos. Todos e cada um carregam em si a responsabilidade individual e coletiva pela História da humanidade.

A História é a manifestação que reflete quem somos, uma vez que somos nós que a imaginamos, que a criamos, que a inventamos e que a realizamos. Ela não existe de uma vez por todas. Ela não decorre de nenhum destino fatal, obrigatório ou imposto. A única certeza que possuímos é a condição de sermos mortais, condição que nos mostra o fim comum, tudo o resto que vai além desta condição é da ordem do possível. Esta potência vital reflete as possibilidades que se anunciam no intervalo que é a vida. Não existe nenhum guião, e se achamos que existe é porque nos foi imposto, e, quando assim é, é uma impostura. Tudo o que não é livremente criado, seja individual ou coletivamente, resulta da opressão que nos sujeita, seja ela interna ou externa.

Em liberdade e num projeto humanizante o sujeito somos nós. Somos livres quando nos descobrimos autores, atores e espetadores em roda viva existencial.

Na contemporaneidade que vivemos, e talvez contra todas as probabilidades, vislumbramos a possibilidade de uma humanidade mais emancipada. As crises carregam em si a semente de uma nova realidade possível, e isso implica-nos, convoca-nos e compromete-nos com uma mudança pessoal e social. Somos tecidos em conjunto, como tal, esta mudança vai muito além da esfera pessoal, ela pede essencialmente mudança nas relações humanas, ela pede novidade no modo como nos relacionamos.

Urge resgatar valores humanos mais antigos, fazê-los novos, redescobri-los, introjetá-los renovadamente, para que dessa forma eles nos “importem”, para que façam morada cá dentro, para que se ampliem numa partilha vivida na relação com os outros. Valores como a solidariedade, como a fraternidade e a liberdade, a par das três grandes virtudes — a coragem, a generosidade e a prudência — são decisivos. A este propósito relembramos o filósofo espanhol Fernando Savater, que nos recorda o valor das virtudes essenciais para a existência humana (e sua convivência), nomeadamente, a coragem para viver, a generosidade para conviver e a prudência para sobreviver.

Em situações de crise estamos convocados a superar obstáculos, a recuperar a condição de ser pessoa na e com a comunidade. Somos convocados a ser a Pessoa que atua através da Vida, a ser a Pessoa que tem a Vida como centro, somos desafiados a ser aquele e aquela que respeita e possui reverência por toda e qualquer forma de Vida (Princípio Biocêntrico).

A Vida e a sua preservação devem ser a nossa centralidade, pois perante a grandiosidade da sua realidade tudo o resto é acessório. Neste tempo de trânsito que vivemos entre uma Era em decadência, pelas suas multi-crises, e outra que se anuncia e que ainda não sabemos bem como será, entre as duas, somos desafiados a repensar a existência, a reorientar o modo de vida, a aprender a viver de um modo mais humanizado, mais próximo.

Apesar de todas as distopias, apesar de todas as divisões, resistimos naquilo que nos pode transformar — uma reunião em humanidade, uma união planetária.

Não ignoramos que cada um tem no seu percurso, individual, comunitário e coletivo, aquilo de que necessita para aprender, e o que tem que aprender, mas persistimos em lavrar o solo comum.

Constatamos que atualmente cresce um modo de funcionamento humano, cujo padrão autores como Erich Fromm, Pierre Weil, Roberto Crema, entre outros, identificaram como patologia da normalidade — normose. A normose refere-se ao comportamento padrão que um grande número de pessoas apresenta ao adaptar-se acriticamente a uma sociedade doente. Nesse modo, a pessoa adapta-se sem questionar à sociedade em que vive e, pior, espera saúde num ambiente saturado, decadente, estagnado. A normose empobrece comportamentos, ela exclui a crítica, ignora tudo aquilo que diverge criativamente do “status quo”, do instalado. Por isso recorrentemente testemunhamos que seres humanos altamente criativos sucumbem ao medo de serem o que são, e desse modo, por medo de poderem ser originais, cedem à vontade da singularidade para serem iguais, e assim caírem na mesmice.

Ser original é ter o direito de existir em liberdade, pois essa é a base do amor — eu sou livre porque o outro também o é. Existir em liberdade é poder circular e deixar-se permear pela dignidade comum. Uma dignidade que não distingue, porque une, que não exclui, porque acolhe. Como refere Isabel Abcassis, “podemos ser crescidos no nosso modo de aparecer perante o outro e ao mundo”.

Neste sentido, a realização humana seria atender ao apelo daquilo que somos e do que podemos vir a ser, ou seja, atender àquilo que nos é próprio, àquilo que é verdadeiro em nós. E o que é próprio e verdadeiro no sentir e atuar humano é aquilo que está em coerência, em respeito e concordância com o princípio vital que nos une — a Vida, não a “vidinha” alheada e alienante.

Cada pessoa possui as suas singularidades, cada um tem o seu olhar, um olhar que olha em perspetiva para o mundo. Um olhar que é único, um olhar que procura o seu lugar numa panorâmica maior, um olhar que busca inteireza. Sendo cada olhar único, existe um compromisso intrínseco para com a humanidade. É algo intransmissível, já que esse olhar que nos é próprio só nós o possuímos, e se o deixarmos de trabalhar para que ele atue, todos perdemos. Quando assim é, a humanidade perde a riqueza que existe no mundo que somos.

Uma vida verdadeiramente humana, autêntica, passa necessariamente por sermos capazes de desenvolver este modo particular de olhar para o mundo. Um olhar que se quer partilhado, em diálogo, um olhar que ajuda a compor um todo maior, uma totalidade unificada. Um olhar que, quando íntegro e integrador, compõe o rosto de uma humanidade por inteiro.

Precisamos do olhar que vê além, do olhar que vislumbra o ainda não sentido, mas que no seu perscrutar de largos e novos horizontes o antecipa. Um olhar que no seu caminhar capta o novo, apanha o original, abraça o possível. Um olhar que traz para dentro os horizontes do futuro, o firmamento que assenta os passos humanos num caminho confiante, para que no fito da lonjura do horizonte o possa abraçar pelos restantes sentidos. Ver, sentir e abraçar a esperança, a confiança e o caminhar, e desse modo fazê-los seus no presente vivido como impulso que o mobiliza para a frente.

Imersos na lonjura dos horizontes captados pelo olhar de um olho que vê, recordamos o aroma libanês de Kahlil Gibran numa das suas mais belas parábolas — o “olho”:

"Um dia, o Olho disse: Vejo, lá além dos vales, uma montanha velada pela bruma. Não é bela?

O Ouvido pôs-se a escutar, e disse: Mas onde é que há alguma montanha? Não a ouço.

Então, a Mão falou e disse: Tento em vão tocá-la. Não encontro montanha alguma.

Disse o Nariz: Não há nenhuma montanha. Não lhe sinto o odor.

Então o Olho voltou o seu olhar para outra parte. E todos puseram-se a comentar a estranha alucinação do Olho, dizendo uns aos outros: Há qualquer coisa errada com o Olho."

Novos olhares estranham-se, depois entranham-se, por vezes confirmam-se. Novos olhares firmam-se naqueles que ousaram fazer o caminho com humildade. Novos olhares confirmam-se naqueles que através dos seus passos se permitem instalar na afirmação do reconhecido, naquilo que se anunciou na anterioridade do conhecimento e desse modo lhes deu o impulso para seguirem em frente. Seguir em frente é um impulso cuja mola é a esperança. Este anúncio futuro de um olhar que vê e perscruta o novo pode não se confirmar, mas só ao andar e com maior proximidade é que nos é permitido ver os contornos do vislumbre da novidade que nos pode orientar. Se não nos fizermos ao caminho definhamos na imobilidade.

Planificar a esperança é poder olhar e ver, sentir e pensar, mover e agir. É poder olhar e acolher o que se olha de um outro modo, de um outro lugar. É percorrer o caminho anunciado pelo olhar desperto.

O Ser daquilo que nos faz humanos construiu as suas fundações nesse erguer que levanta a cabeça e olha à sua volta, nesse impulso que se libertou do pó, nesse movimento que se elevou do chão árido, nesse gesto que o libertou de um estado que o impedia de ver além da condição prévia à sua humanização.

Somos filhos de um olhar que se liberta e que olha a novidade do horizonte — o nunca visto — foi por aí que fomos, através do espanto e do interesse caminhamos. Somos aqueles que se espantam e se fazem ao caminho nesse andar conjunto de sermos Humanidade.

Somos filhos do olhar que olha no olho um do outro e se reconhece em conjunto. Somos filhos desse olhar que liberta a palavra da pronunciação, a palavra do reconhecimento. Somos a palavra que carrega a potência de poder dizer em conjunto, eu, tu, nós. No encontro caminhamos, no encontro esperançamos.

Vamos?


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