O Duelo que Marcou a Arca d’Água
Há uma Arca de Água debaixo de um jardim que se tornou famoso por um duelo.
No coração da freguesia de Paranhos, no Porto, encontra-se um jardim onde o verde é denso, o tempo desacelera face ao bulício urbano à volta e a sua história é tão profunda como as nascentes que se escondem no subsolo. Hoje chama-se Praça 9 de Abril, mas para a alma portuense será sempre o Jardim de Arca d’Água, palco de um mítico duelo literário — e com espadas bem reais.
Muito antes das notas musicais ecoadas do coreto ou do brilho romântico do lago, o espaço era um terreno baldio nos arrabaldes de um importante burgo. Aqui nascia o principal manancial que saciava a sede do Porto medieval: a Arca de Água, também conhecida como Arca das Três Fontes, donde brotavam três nascentes de água pura.
Num tempo em que a água valia tanto como ouro, surgiram petições a exigir solução para a escassez do precioso líquido. Já sob o domínio do primeiro dos Filipes de Portugal (II de Espanha), autorizou-se, em 1597, a construção do sistema de canalização que levaria a água de Paranhos até aos chafarizes da cidade intramuros, obra orçada em 22.800.000 réis — uma verdadeira fortuna para a época.
Por condutas de granito, discretas e firmes como manda a tradição portuense, a água corria subterraneamente, alimentando fontes e lavadouros num ciclo vital que só terminou no final do século XIX, quando os avanços da engenharia permitiram captar água diretamente do rio Sousa, afluente do Douro.
Mas o lençol de água nunca desapareceu. Permaneceu silencioso sob o solo que, séculos depois, se tornaria num dos jardins mais icónicos da cidade — um lençol que se move como um rio adormecido, atravessando ruas emblemáticas até às imediações da Praça Gomes Teixeira, popularmente conhecida como a dos Leões.
Foi neste cenário que, a 6 de fevereiro de 1866, uma outra corrente — feita de palavras afiadas — se descontrolou e resultou num duelo. Ramalho Ortigão e Antero de Quental, duas figuras maiores da literatura do século XIX, defrontaram-se num duelo comme il faut no então Largo de Arca d’Água.
A origem da disputa era literária; a escalada, visceral. Tudo começou com a publicação de Bom-Senso e Bom-Gosto, onde Antero criticava duramente António Feliciano de Castilho, ícone dos ultra-românticos. Camilo saiu em defesa de Castilho, e Ramalho, discípulo do mestre, reagiu com severidade, acusando Antero de cobardia. A tensão levou ao inevitável desafio.
Antero deslocou-se ao Porto para resolver o conflito de forma física, disposto a um confronto de rua. Camilo Castelo Branco dissuadiu-o: “Não resolves a honra na sarjeta”, terá dito. Assim se marcou um duelo à moda antiga: espada em punho, testemunhas presentes e honra restaurada com feridas abertas.
Ramalho, que dizia dominar a esgrima, escolheu a espada. Antero, que aprendera as regras na véspera, confiou na sua determinação. Na fria manhã do duelo, dois coches pararam junto à Arca d’Água. O confronto foi rápido: Ramalho caiu ferido num braço; Antero saiu ileso e sereno. As carruagens afastaram-se, levando consigo mais do que corpos magoados — carregavam um episódio vibrante da história cultural portuguesa.
O cenário era bem diferente do atual. O Largo de Arca d’Água era apenas isso: um largo arborizado, agreste e marcado pela presença da água subterrânea. Só no início do século XX surgiu o projeto do jardim, desenhado por Jerónimo Monteiro da Costa e inaugurado em 1928, já com o lago, a gruta romântica, o coreto e os plátanos que ainda hoje sombream os caminhos.
O nome oficial, “9 de Abril”, homenageia outra batalha — a de La Lys, na Flandres, durante a Primeira Guerra Mundial — onde milhares de soldados portugueses pereceram num dos episódios mais trágicos da nossa história militar. Ainda assim, para os portuenses, aquele lugar continuaria a ser Arca d’Água, nome que brotava da alma líquida da cidade.
A toponímia anterior, Largo das Três Fontes, remonta ao período anterior à nacionalidade. Já na carta de couto outorgada por D. Teresa em 1120 ao bispo D. Hugo se mencionavam duas “arcas” de água na região — prova da importância vital deste manancial nos tempos medievais.
Gostou do texto? Deixe abaixo a sua reação e comentário... 

