Um peregrino português no coração do Rio Grande do Sul
Um peregrino português no coração do Rio Grande do Sul
Um peregrino português no coração do Rio Grande do Sul
Um peregrino português no coração do Rio Grande do Sul

Um peregrino português no coração do Rio Grande do Sul

Dois anos volvidos, eis-me de novo a atravessar o Atlântico, ao encontro dessa extraordinária irmandade de homens e mulheres que, a milhares de quilómetros de Compostela, continuam a fazer do Caminho de Santiago uma parte importante das suas vidas.

Em 2024, tinha já escrito, nestas páginas, sobre a experiência de um peregrino português em terras de Vera-Cruz. Era então São Paulo o destino, mais concretamente o Mosteiro Jesuíta de Itaici, em Indaiatuba, onde decorreu o XI ENAP, promovido pela Associação dos Peregrinos de São Paulo. Foi o primeiro encontro com esta comunidade de peregrinos brasileiros, uma realidade geograficamente distante de Compostela, mas surpreendentemente próxima na forma de viver, sentir e partilhar o Caminho.

Dois anos depois, a seta amarela apontava ainda mais para sul. Desta vez, o destino era o interior do Estado brasileiro mais meridional: São Miguel das Missões, um lugar onde a História parece aguardar quem chega.

Entre os dias 4 e 7 de setembro, a ACASARGS - Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela de Rio Grande do Sul, reuniu mais de duas centenas de peregrinos, voluntários, dirigentes associativos e oradores para quatro dias em torno da história, da cultura, da espiritualidade e desse inexplicável e maravilhoso sentimento de pertença que o Caminho consegue criar entre pessoas que pouco têm em comum, para além da vieira que levam na mochila e das centenas de quilómetros que guardam na memória.

A organização escolhera para esta 12.ª edição um cenário particularmente simbólico: São Miguel das Missões, em pleno território missioneiro, lugar que ainda hoje conserva uma história de fé, superação e sacrifício de quase quatro séculos.

Desta vez éramos quatro os convidados europeus que partiram do Porto: os professores Juan Monterroso e Marta Cendón, ambos da Universidade de Santiago de Compostela; Manuel Garrido, para todos simplesmente Manolo, historiador, peregrino, homem ligado há décadas ao Plan Xacobeo da Xunta de Galicia e autor de obras fundamentais como Guía Práctica del Camino Portugués ou El Camino de Santiago: doce siglos de historia; e este português que vos escreve. Quatro viajantes jacobeus, portanto, dispostos a fazer aquilo que os espanhóis, com feliz ironia, chamam “cruzar el charco”, atravessar o Oceano Atlântico (nunca me pareceu tão imenso como desta vez, confesso) que separa a Europa da América.

O esforço dissipou-se, confesso, perante a calorosa recepção de um dos mais importantes anfitriões do certame, o argentino (e naturalizado espanhol), Fernando Guillermo, vice-presidente da ACASARGS.

Do Porto até ao interior gaúcho foram quase dez mil quilómetros. Uma longa viagem para descobrir que, afinal, Compostela também pode estar muito longe de Santiago, como em São Miguel das Missões, lugar de enorme espiritualidade e energia, perfume e sabor a chimarrão, na tranquilidade das paisagens gaúchas.

Ruínas São Miguel

Ali permanecem as ruínas da formosa igreja de São Miguel Arcanjo, memória pétrea de uma das experiências humanas mais fascinantes, complexas e também trágicas da América do Sul colonial. A partir do século XVII, jesuítas e populações Guarani organizaram, entre os atuais territórios do Brasil, Argentina e Paraguai, uma vasta rede de reduções. No atual Rio Grande do Sul formaram-se aqueles que ficariam conhecidos como os Sete Povos das Missões: São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo. São Miguel, cujos vestígios constituem hoje o mais impressionante testemunho deste universo missioneiro em território brasileiro, integra o conjunto das Missões Jesuíticas dos Guarani classificado pela UNESCO como Património Mundial desde 1983.

Era, por isso, difícil imaginar cenário mais apropriado para abrir um encontro de peregrinos.

Tributo ao Povo Guarani

Tributo ao Povo Guarani | Fotografia de ACASARGS - XII ENAP 

A cerimónia inaugural foi precisamente um tributo às raízes daquela terra e, sobretudo, ao povo Guarani. Houve referências à cultura gaúcha, à erva-mate e ao chimarrão, bebida cuja história mergulha precisamente nas práticas indígenas e que os séculos transformaram num dos mais reconhecidos símbolos da hospitalidade do Rio Grande do Sul. Houve música, palavras e memória. E houve um instante particularmente belo, quando uma jovem gaúcha recitou um poema dedicado aos Guarani. Num encontro dedicado ao Caminho, começávamos, afinal, por homenagear aqueles que já caminhavam por aquelas terras muito antes de nós e que nos convidavam a viver a ancestralidade e contemporaneidade em comunhão.

Inevitavelmente, e para que a história seja um formulário de memórias que, por muito que nos doa, não se pode esquecer, as pedras de São Miguel obrigam-nos a recordar uma história que não pode ser resumida apenas à imagem romântica das missões jesuíticas.

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, procurando resolver definitivamente antigas disputas territoriais na América do Sul. Pelo acordo, Portugal entregaria à Coroa espanhola a Colónia do Sacramento, nas margens do Rio da Prata, recebendo em contrapartida os territórios dos Sete Povos das Missões, então sob domínio espanhol. O problema é que aquelas terras não estavam vazias. Nelas viviam dezenas de milhares de Guarani que deveriam abandonar as suas casas, lavouras, ervais, oficinas, igrejas e campos para se transferirem para oeste do rio Uruguai.

Ruínas

Fotografia de Artur Filipe dos Santos

Entre 1753 e 1756, indígenas de seis dos Sete Povos enfrentaram as forças conjuntas de Portugal e Espanha naquela que ficou conhecida como Guerra Guaranítica. A derrota indígena foi devastadora e o sistema missioneiro começou a desagregar-se, processo que se agravaria nas décadas seguintes, nomeadamente com a expulsão dos jesuítas. O que hoje contemplamos em São Miguel é, por isso, muito mais do que património arquitetónico. As ruínas silenciosas que agora contemplamos ecoam as horas mais negras do povo Guarani e os lamentos de Sepé Tiaraju.


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