Sem Vergonha: Quando a Impulsividade Substitui o Pensamento
Sem Vergonha: Quando a Impulsividade Substitui o Pensamento

Sem Vergonha: Quando a Impulsividade Substitui o Pensamento

O sem vergonha...

As pessoas andam destravadas, desbocadas, inconvenientes, impulsivas. Isto causa incómodo, gera tensão, acentua divergências, aquece a discórdia e faz eclodir os conflitos. Existe um certo descarrilamento das emoções, uma difusão das sensações, uma baralhação dos afectos. 

Priorizamos a opinião em detrimento do pensamento. Tudo está na superfície. Existe uma hipersensibilidade àquilo que não nos confirma no sentir, no pensar e no agir. O que por sua vez revela uma certa intolerância, não se aceita ser colocado em questão na própria e inerente falibilidade humana. O que revela um certo desejo de omnipotência - “eu basto-me a mim” - e ai de quem seja o reflexo do defeito, da falha, da incompletude, da ignorância!

Quebrou-se a ponte entre o sentir, o pensar e o relacionar. O pensamento requer tempo, interlocução, pausa, reciprocidade, diálogo, sentimento. O pensar tem um ritmo próprio, um respirar único. Dito de outro modo, a cabeça quer-se bem arejada e bem relacionada. 

A opinião é importante como pontuação do ritmo do pensar, não como seu substituto. Observamos a desmedida, sim do que falamos aqui é de limites. Limites ao impulso, essa mola interna que pulsiona o nosso agir, que é a ignição para o comportamento. Se não conhecemos a mola, não direcionamos o agir, somos agidos e não agentes. 

Esta imaturidade afetivo-emocional denota a dificuldade do sujeito na orientação da sua natural agressividade, que rapidamente vira agressão. Verificamos isso nos comportamentos de maltrato, cada vez mais explosivos, despojados e humilhantes. A lista é tristemente cada vez maior. 

Dizia Schiller, filósofo alemão, que é a fome e o amor que move o mundo, expressão que Freud apanhou e que tão bem desenvolveu. Como temos assistido, quando falta alimento e amor, tudo descarrila. O alimento, para além do físico, é antes de mais alimento afetivo, ele é  fruto da amorosidade, é resultado de relações de bom trato.

Chama

Fotografia de Vítor Fragoso | Toda a energia pode aquecer ou destruir. A diferença está na capacidade de lhe dar direção.

Só um travão bem usado, ou seja quando convém, é que pode conter a deriva. Um dos travões à impulsividade (imaturidade crescente), é a vergonha, que quando bem integrada e saudavelmente funcional, coloca freio. Por sua vez, o seu contrário é “o sem vergonha”, é o sem freio que cresce a olhos vistos. 

A vergonha é uma emoção secundária, social, portanto relacional. Ela coloca-nos em perspectiva na relação que estabelecemos com os outros. É desagradável, mas como todas as emoções, quando integrada e bem orientada, é um recurso da vida e para a vida.

Na atualidade a vergonha eclipsou-se. É um facto que podemos ver facilmente. No entanto a vergonha saudável, não é aquela que é uma força de bloqueio, mas aquela que nos ajuda a medir e conter as relações humanas.  

Seguindo a proposta de Freud, e para melhor compreensão do nosso modo de funcionamento, proponho ao leitor que entremos um pouco no íntimo da pessoa. O mestre Freud entende o psiquismo por meio de um funcionamento que ele caracteriza como dinâmico.

Uma das suas propostas foi apresentar aquilo a que chamou de aparelho psíquico, como sendo um hipotético lugar composto por três instâncias, nomeadamente id, ego e superego. A latinização dos termos realizada pelos tradutores anglo-saxónicos, trouxe-nos alguns problemas de compreensão, mas não vamos entrar por aí, uma vez que estes entraram facilmente no léxico de profissionais e leigos. Escolhemos partir destes termos porque na perspectiva freudiana são os mais usais.  

De um modo simples e didático, auxiliados por Fernando Pinzón, o id seria a instância impulsora, o superego a repressora, e o ego a reguladora. É uma tentativa legítima de compreender as forças que nos movem, nomeadamente como se passa do instinto a uma libido orientada. Temos então aqui uma relação de potencial equilíbrio entre  impulso, repressão e regulação.

O ego, enquanto instância mediadora do aparelho psíquico e parte tendencialmente consciente do Eu, quando integrado e maduro, funciona como o regulador do motor (id), dos travões (superego) e do volante (Ego - condutor). Progressivamente, torna-se o agente da condução: o Eu, o condutor da própria vida, a pessoa autodeterminada e emancipada, o capitão da sua viagem.

É função do ego orientar os impulsos do id, isto é, dar direção às forças que instam, que pressionam e que impulsionam para a ação. Um Eu que não governa nem orienta é como um condutor que não sabe utilizar o acelerador, os travões, a caixa de velocidades e o volante de um carro. É um Eu que segue desgovernado, sem saber para onde vai nem como chegar. Tal como conduzir um automóvel exige aprendizagem contínua, também conduzir a própria vida é uma tarefa que se aprende e aperfeiçoa ao longo da sua existência e do seu curso, é algo que se aprende em permanência. 

A libido seria, por assim dizer, a energia produzida a partir da excitação pulsional. Imaginemos um automóvel: a gasolina fornece a energia potencial, que o motor transforma em força para mover o veículo. De forma análoga, a libido constitui a energia psíquica que alimenta o dinamismo do id e procura vias de expressão e satisfação. 

Quando a tensão permanece excessiva e não encontra formas adequadas de elaboração ou realização, tende a ser vivida como desprazer; quando encontra uma expressão satisfatória — seja pela satisfação direta, seja pela sublimação ou pelo investimento em pessoas, projetos e ideais — produz prazer. Neste sentido, a libido pode também ser entendida como a energia psíquica que sustenta relações amorosamente investidas.

Já vimos que o "sem-vergonha" não tem o controlo do seu “carro”. Em vez de ser agente da sua própria força, é por ela agido. O seu superego revela-se deficitário na função reguladora: é como se os travões estivessem avariados ou nunca os tivesse aprendido a usar. Quando assim é, o impulso acelera sem encontrar contenção, e a ação segue sem freio. Claramente não é uma ação livre. Não é a liberdade que conduz o comportamento, mas a incapacidade de regular a própria impulsividade.

Voltemos novamente à base para uma tentativa de compreensão. Não podemos entender o comportamento e conduta humana, sem considerarmos os conceitos de instinto, pulsão e desejo. Relembramos que a nossa exposição é generalista e didática. 

Comecemos pelo instinto. O que é? O instinto pode ser compreendido como uma tendência geneticamente determinada. Por sua vez, a pulsão, pode ser entendida como um estímulo, um incentivo fisiológico que se traduz em desejo. De acordo com Fernando Pinzón, ela é a fronteira entre o físico e o mental. A pulsão dá ao impulso orgânico uma orientação singular. O instinto é geral, igual nas circunstâncias, a pulsão é distinta em cada pessoa, varia, é singular, é pessoal.

O desejo é movimento afetivo que parte da excitação libidinal, que estimula reviviscências de imagens mnésicas. Ou seja, tendemos a reviver o que estas imagens reativam (simbólica e imaginativamente). O desejo seria, por assim dizer, a cara consciente da pulsão, assim como o instinto a cara orgânica e biológica.

Quando não nos conhecemos, quando não nos relacionamos em reciprocidade e respeito, quando nos isolamos e não sentimos e pensamos em conjunto tudo pode descarrilar e dar origem a um desnorte neste dinamismo, com todas as consequências que já referimos anteriormente.

Amadurecer e integrar desejo, pulsão e gozo, é poder vir a compreender que o prazer é o objetivo da pulsão e que ele aparece como satisfação do instinto. É poder compreender que o gozo é antes de mais a realização dos desejos de um Eu maduro. De forma a podermos falar de um gozo estético, espiritual, intelectual, sexual, mas muito mais profundo, humano e criativo.

Tudo isto bem distante do “sem vergonha” que testemunhamos atualmente, onde a mentira disfarça-se de verdade, a ignorância de sabedoria, o mal, de bem, a insegurança de segurança, o retrocesso de progresso, o ódio, de amor, a desumanidade de humanidade.


Sugestão de leitura |
Jiménez Hernández-Pinzón, F.(2018). El laberinto del Minotauro: Claves del Psicoanálisis para entender el funcionamiento mental y sus perturbaciones.Bubok.


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