Educação é Urgente
Educação é Urgente

Educação é Urgente

Pensar a educação hoje, e sempre, é senti-la e pensá-la como um tecido conjunto, um complexo que se entre-tece entre a família, o aluno, o professor, a comunidade e a sociedade. 

Hoje vivemos tempos conturbados, tudo está do avesso, onde deveria existir previsibilidade e confiança, experimenta-se a incerteza e insegurança, gerando um grande sentimento de instabilidade entre todos os agentes educativos, alunos, professores e pais.

Onde deveria existir confiança, experimenta-se insegurança. Não há em quem confiar. A confiança fia-se e tece-se num movimento conjunto, recíproco e de respeito entre as diferentes partes, o que de momento não se encontra presente.

Pensemos a Escola como um todo, uma Escola de todos e para todos. Vamos aos docentes, aos professores,  um professor é um interlocutor, é importante que este se reconheça como mediador de um diálogo entre gerações. Espera-se que se permita interrogar a si mesmo, face ao percurso corrente dos jovens e que se questione acerca da sua mensagem, daquilo que passa, assim como do resultado da sua prática.

A Escola deve ser, antes de mais, um tempo e um espaço de vida e aprendizagem. Como afirmava a saudosa educadora e psicóloga, Maria Rita Mendes Leal (MRML),  a Escola deve ser um lugar de intercâmbio pessoal, social, uma prática de cultura, onde se congrega o livro e a mente, a tecnologia e os valores humanos. Diz a autora, que a finalidade da docência é apontar aos jovens os novos caminhos do saber. Uma Escola de todos e para todos, é esse o desígnio.  

Hoje mais do que nunca urge cuidar da transmissão do saber e do agir. Precisamos de professores que se possam dedicar aos alunos, mas para tal, necessitam de valorização, estabilidade, segurança, previsibilidade. 

Os primeiros ciclos escolares visam, acima de tudo, encaminhar crianças e jovens para a idade adulta. Esta fase não se resume ao resultado de um exame. No entanto, com o culminar de um percurso o momento de avaliação final deve ser cuidado e respeitoso para com os seus utentes - os alunos. 

Apesar disso, o que assistimos é o absurdo – vai muito além do compreensível. Observamos estupefactos a enxurrada de acontecimentos imprudentes e sem precedentes que resultaram num sentimento e experiência caótica. Tudo baralhado, tudo fora do lugar, do esperado. O caos substituiu a ordem necessária e exigida nestas circunstâncias. Sim, tudo falhou.

E quando há falhas, no mínimo espera-se uma assunção de responsabilidade, espera-se empatia e consideração pelas famílias, pelos alunos, pelo corpo docente. No início, na espera da resposta, o que veio foi nada. Nada que apaziguasse e orientasse, antes pelo contrário vimo-nos envoltos na miragem, andamos pelo deserto, em terreno árido, o que veio a potenciar ao máximo os três grandes elementos ansiógenos, a saber: a incerteza, a instabilidade e a insegurança. Alunos, pais e professores ficaram sem chão e sem teto. Chão que os sustentasse, teto que os abrigasse. 

Voltemos à Escola, a Escola para todos e de todos. O seu objetivo maior, é formar crianças e jovens como humanos e cidadãos. O que dá sustento a essa finalidade é a sua organização, as suas condições, a sua orientação de ensino-aprendizagem.

A grande missão da Escola é cultural. Apresenta-se como guardiã e transmissora de um saber. Tarefa exigente, mas fulcral e decisiva, de forma que o professor, mais do que um perito da matéria em estudo deve apresentar-se  como humano, como pessoa consistente e comunicante (MRML).  De acordo com MRML, os professores são condutores sociais, figuras (como que) parentais. São testemunhos, modelos, elos vivos de cultura e de sabedoria, os professores e toda a instituição e estrutura educativa. Se não vamos por aí, por onde vamos e como?

A Escola sustenta-se num tripé edificante do humano que é composto pela informação, interação-exploração e a expressão pela palavra e pela ação.  É da interação com colegas e professores que os alunos aprenderão a arte  de interagir e de se moverem no sentido da exploração das realidades vividas, assim como aprenderão a se exprimirem sobre o que contactaram (MRML).

Como tão bem referia o mestre João dos Santos “ensinamos como somos, como aprendemos e como continuamos a aprender”. Um professor forma-se, é o resultado de todo o seu percurso pessoal e profissional, daí que a aprendizagem e formação em permanência sejam decisivas. É urgente criar condições para que possamos dar forma àquilo que de mais humano temos, a saber, a comunicação, a linguagem, a qualidade das relações humanas, competências para ser humano. Acreditamos que esse é o centro, todas as outras, as técnicas e as tecnologias educativas são complementares, nunca substitutas.

Qual a proposta que a Escola tem para hoje? É viável a sua promessa, educar e formar crianças, jovens e adultos? Falamos de uma Escola de todos e para todos, o seu projeto deve entrelaçar as dimensões escolar-familiar e social como um tecido verdadeiramente conjunto,  um complexo.

Cada agente e educador está pois diante de uma necessidade de resposta ética que deve ser interrogante das suas práticas. Tal como destaca a psicóloga e psicanalista Teresa Sá, urge relembrar que, cada gesto, cada ação prática é dirigida  a crianças e jovens em idades fundamentais para a construção identitária. Idades em que cada movimento intencional, em que cada palavra, cada gesto, cada aprendizagem contam para o desenvolvimento de um futuro que se anuncia, que ainda não está decidido para um sujeito, para uma pessoa ainda em construção.

Espera-se que a Escola seja um lugar de vida e formação conjunta de todos os interlocutores, onde se estimula a curiosidade e a participação. Hoje o que é preocupante, como já referia na década de noventa do século passado Maria Rita Mendes Leal, é o estado de anomia que se vive em Portugal, a Escola está sem uma filosofia da educação que a sustente e oriente.

Flor branca

Fotografia de Vítor Fragoso | Simboliza o crescimento, o potencial...

O que se espera da Escola dos primeiros ciclos, das bases e dos fundamentos é que proporcione às crianças e jovens um espaço de ensino-aprendizagem onde estas possam aprender o que quer que seja sem esquecer que para tal é necessário providenciar condições e meios que permitam a exploração do vasto campo de experiência e vivência que cada idade possibilita, considerando sempre a psicologia do desenvolvimento a elas adequada (MRML). 

Crianças e jovens precisam de sentir a Escola como uma grande dinâmica interpessoal entre alunos-professores-família-sociedade-comunidade e instituição reguladora e ministerial, onde sintam que a realidade é previsível, sustentável, controlável. Para que crianças e jovens possam organizar os dados da realidade de acordo com o seu estilo percetivo  e o seu modo de ressonância pessoal.

O que se aspira é que cada um chegue à melhor realização de si em conjunto com os outros, em coerência, concordância e convivência.
Para que desse modo possa experimentar e viver a autêntica vivência de sucesso, feita de sentimento de respeito pelo próprio esforço, assente na verdadeira prioridade para assegurar o sucesso que a Escola quando devidamente sustentada deverá prover. Deverá prover condições para aprender a arte de comunicar, de questionar e de se entusiasmar. Isso é possível quando todos dão o exemplo em todos os níveis e hierarquias, e que mesmo estando aquém não deixam de saber qual o sentido e destino do ato educativo e qual a finalidade da Escola. 

Daqui resulta o imperativo ético de uma interrogação sobre o sentido dos atos próprios, é dizer, da sua significação e da sua direção, pois é aí que nos movemos e nos comprometemos com um ethos que nos abriga; caso contrário, encontramo-nos desabrigados de um sentido educativo comum e por isso imóveis e descomprometidos.

Urge tornar a Escola um projeto de Todos, para Todos, com Todos.


Sugestões de Leitura |

 Leal, M. R. M. (1994). Personalidade integrada e a escola de todos. Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich. 
Sá, M. T. (2021). Psicanálise em linguagem intermediária: Conversas com educadores. Húmus.


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