As Festas Nicolinas Voltaram a Transformar Guimarães
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Festas Nicolinas: Séculos de Tradição Estudantil no Coração de Guimarães

É a maior celebração do ano em Guimarães. Saem pelas ruas da Cidade-Berço estudantes vimaranenses — atuais e antigos — ávidos por celebrar as Festas Nicolinas, as primeiras comemorações da quadra natalícia em terras minhotas.

Antes do Menino Jesus ou do “Velho das brancas barbas”, antes de todas as luzes acesas, dos mercados contemporâneos ou mesmo das rabanadas e das filhós, há uma festa na cidade ducal que inaugura o tempo do Advento: as Festas Nicolinas, ou, como durante séculos se chamou, simplesmente, as Festas a S. Nicolau. A designação moderna deve-se ao célebre pregão escrito por João de Meira (“A Música da festa Nicolina que a terra abala e desconjunta o Céu!”), um dos mais notáveis estudiosos e guardiões da memória vimaranense.
Com este “trovão” em forma de pregão, a festa ganhava nome próprio e identidade reconhecida.

Mas a sua origem precede o nome. As Festas a S. Nicolau nasceram ligadas ao antigo Liceu de Guimarães (hoje Escola Secundária Martins Sarmento) e aos seus estudantes, que cedo adotaram São Nicolau como patrono. A escolha não é acidental: São Nicolau, bispo de Mira, é conhecido como protetor dos estudantes, dos pobres e dos navegantes, sendo, na Europa medieval, o santo que velava pela juventude. A sua devoção, espalhada pelas escolas e universidades europeias, encontrou em Guimarães um terreno fértil para se enraizar. O culto chegava pelas escarcelas dos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela.

Ao longo dos séculos — existem relatos escritos que recuam ao séc. XIV — a tradição adquiriu a forma de um ciclo ritual profundamente estruturado, onde cada ato carrega uma simbologia própria, um património imaterial que resistiu às modas e ao desgaste do tempo. Nada acontece por acaso nas Nicolinas. Cada gesto tem história. Cada noite cumpre um papel numa liturgia laica, mas também com raízes cristãs, envolta num espírito irreverente e popular.

Festas

Não se pense, porém, que as Nicolinas são apenas uma celebração festiva. São nove dias de caixas e bombos, gorros e lenços nicolinos a percorrer ruas e largos, convocando o povo para a grande festança. Há nestas batidas algo de arcaico, quase iniciático, como se os jovens convocassem à memória o tempo em que se celebrava o fim da vida juvenil e o início da idade adulta. Neste ritual surgem momentos que merecem ser desvendados e que se revelam entre 29 de novembro e 7 de dezembro.

As Novenas, os únicos atos realmente religiosos da tradição, em honra de Nossa Senhora da Conceição, reúnem os estudantes na pequena capela dedicada à evocação mariana, situada na freguesia de Azurém.
Após este momento de recolhimento chegam as Ceias, reuniões de confraternização estudantil, mesas fartas e cumplicidade entre gerações. Alguns antigos alunos, os Velhos Nicolinos, regressam para transmitir o essencial: a continuidade de uma chama que só permanece viva quando é passada à geração seguinte.

As ceias antecedem o icónico Enterro do Pinheiro, sem dúvida o momento mais épico da foliada. Um pinheiro cortado e transportado em cortejo ruidoso percorre as ruas e ergue-se como estandarte máximo da festa. A cidade inteira sai à rua e mistura-se com os estudantes, novos e antigos, num turbilhão de tamboradas. Em Guimarães, o Pinheiro é um símbolo de pertença: quem ajuda a puxar, erguer ou acompanhar o cortejo inscreve-se numa linhagem festiva que atravessa décadas e gerações marcadas pela vida escolar vimaranense.

As Posses mantêm o humor e a sátira, expondo publicamente os episódios do ano letivo num exercício de crítica bem-humorada que recorda antigas cerimónias académicas. Servem também para reunir víveres que serão distribuídos no Magusto. Este momento devolve o peditório às gentes da cidade, num ambiente que conserva uma ruralidade enraizada no coração urbano.

Ritual

As Roubalheiras, mais simbólicas do que reais, ironizam a antiga prática dos estudantes de “surripiar” objetos inofensivos para, depois, os devolverem em ambiente festivo. É um jogo que mistura audácia juvenil com transgressão controlada, cujo resultado termina aos pés do pinheiro.
O Pregão, por sua vez, traz a sátira, a crítica social e a veia literária. É uma alma da festa, um chamamento à participação, um manifesto nicolino que cruza poesia e teatralidade.

E depois surgem as Maçãzinhas, talvez o número mais inesperado, delicado e encantatório do ciclo. Na tarde de 6 de dezembro, Dia de São Nicolau, os estudantes desfilam rumo à Praça de S. Tiago, vestidos a rigor, empunhando canas longas com uma lança metálica na ponta. No topo, segue a pequena maçã que dá nome ao rito. As raparigas, muitas vezes nas janelas e varandas, oferecem fitas de cores diversas, que os rapazes amarram à cana. No final, o estudante entrega a maçã à jovem escolhida e recebe, em troca, uma pequena prenda, de forte valor simbólico.

Por fim, chegam as Danças, o Baile da Saudade e o Baile Nicolino, expressões onde música e movimento reforçam a identidade comum. Hoje realizam-se em espaços culturais, mas, no passado, era nas ruas e nas casas que se entoava o “hino escolástico”, anunciando o adeus à festa.

escultura

Fotografias de Artur Filipe dos Santos

Este sentimento encontra forma física no Monumento ao Nicolino, idealizado por José de Guimarães e inaugurado em 2007 junto à igreja de São Gualter. A obra, simultaneamente moderna e ritualista, concentra o espírito da tradição que procura, desde 2005, ser reconhecida como Património Imaterial da Humanidade: uma energia irreverente, uma musicalidade telúrica e a força de uma tradição que dialoga sem medo com a contemporaneidade.
Um marco urbano, mas também um gesto simbólico: a cidade consagra, em arte pública, aquilo que o povo da Cidade-Berço guarda na alma há séculos.


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