Até aos Reis é Natal: A História, os Símbolos e as Tradições dos Reis Magos
A tradição dos Reis Magos em Portugal e no Mundo...
É a celebração que encerra o período do Natal. A festa dos Reis Magos vive-se intensamente nos países latinos, com profundo enraizamento em Portugal e em Espanha. Mas como surgiu esta tradição, enquanto metáfora do nascimento de Jesus?
Do dia 25 de Dezembro até 6 de Janeiro contam-se doze dias, doze noites. Um tempo suspenso entre o nascimento e a revelação. A tradição dos doze dias de Natal nasce da consciência de que o nascimento de Jesus não se esgota no instante da manjedoura, conduzindo a uma reflexão teológica segundo a qual o Natal actua como um mistério íntimo, enquanto a Epifania se compara a um “anúncio público” desse acontecimento. Entre um e outro constrói-se um ciclo contínuo que, durante séculos, estruturou a vivência cristã do tempo.
Nos primeiros séculos do cristianismo, quando o calendário litúrgico começa a ganhar forma, esta lógica torna-se clara. O nascimento de Cristo fixa-se progressivamente a 25 de Dezembro — cristianizando antigos rituais do Yule nórdico, cultos germânicos do Solstício e festividades romanas — enquanto o dia 6 de Janeiro assume diferentes significados conforme as geografias cristãs. No Oriente, a Epifania associa-se durante muito tempo ao Baptismo de Jesus e à sua manifestação divina. Já no Ocidente latino, a celebração centra-se sobretudo na Adoração dos Magos, episódio que simboliza a revelação de Cristo aos povos não judeus. É aqui que os Reis Magos entram definitivamente na construção do sentido do Natal.
Do ponto de vista bíblico, a sua presença é mínima e profundamente sugestiva. Surgem apenas no Evangelho segundo São Mateus, no segundo capítulo, descritos de forma lacónica como magi vindos do Oriente. O texto não indica quantos são, não lhes atribui nomes, não esclarece a sua proveniência exacta nem os apresenta como reis. São sábios, leitores dos astros, homens de conhecimento, reforçando profecias do Antigo Testamento. Seguem uma estrela, procuram o recém-nascido “rei dos judeus” e levam consigo três dons: ouro, incenso e mirra.
É precisamente no silêncio da ausência de referências mais exaustivas que se abre espaço à construção desta matriz cultural. O número três impõe-se por dedução simbólica a partir dos dons oferecidos. A leitura régia nasce da interpretação de antigas profecias veterotestamentárias, que falam de reis vindos de longe para glorificar o Messias. A exegese cristã medieval funde esses textos com o relato de Mateus e transforma os sábios do Oriente em reis que reconhecem a soberania de Cristo. Não se trata de uma leitura literal, mas de uma construção teológica, pensada para comunicar uma ideia central: a de que o nascimento de Jesus adquire alcance universal.
É na Idade Média que esta narrativa se completa simbolicamente. Os Magos recebem os nomes que hoje conhecemos: Gaspar, Melchior e Baltasar. Nenhum destes nomes consta de qualquer texto bíblico, mas surgem em tradições tardias que se foram fixando, de forma definitiva, através da arte cristã, sobretudo a partir do século VI. Nomear os Reis tornou-os próximos dos crentes, reconhecíveis. Numa sociedade maioritariamente analfabeta, a fé ensinava-se pela imagem, pela oralidade e pelo ritual. Os Reis precisavam de rosto, idade e identidade.
A iconografia medieval foi mais longe. Cada Rei passa a ser representado com uma idade distinta: um jovem, um homem maduro e um ancião. Surge assim a metáfora das idades da vida. Esta leitura articula-se com outra construção simbólica decisiva: a associação dos três Reis aos três continentes conhecidos pela realidade medieval. Da Europa teria vindo Belchior (ou Melchior, como surge em vários textos), da Ásia Gaspar e de África Baltasar, muitas vezes representado com tez negra. São o orbis terrarum anterior às grandes navegações. A fusão destas leituras alegóricas cria uma das imagens mais poderosas do cristianismo ocidental.
Não é por acaso que a Adoração dos Magos se torna a cena da infância de Cristo mais representada na história da arte ocidental. No Barroco flamengo, Peter Paul Rubens leva esta lógica ao extremo. As suas Adorações dos Magos são verdadeiras assembleias: cortejos densos, trajes orientais, africanos e europeus, corpos em movimento, multiplicidade de rostos e gestos.
Na escultura e na talha dourada ibérica dos séculos XVII e XVIII, esta expansão iconográfica é igualmente visível. Em grandes retábulos, como os da Catedral de Sevilha, os Reis são frequentemente acompanhados por figuras secundárias de traços africanos ou orientais, que alargam visualmente o alcance da cena.
É em Portugal — fruto da epopeia dos Descobrimentos — que essa extensão alegórica ganha novos contornos. Na pintura, com Grão Vasco; na escultura, com Machado de Castro. Na Adoração dos Magos do Retábulo da Sé de Viseu (actualmente no Museu Grão Vasco), o pintor substitui o tradicional Rei africano por uma figura claramente identificável como indígena sul-americano. Já Joaquim Machado de Castro introduz um quarto Rei Mago. Num tempo marcado pelo Iluminismo e por uma consciência global mais ampla, o escultor português propõe uma Epifania que já não cabe nos limites simbólicos do mapa antigo.
Como não podia deixar de ser, há todo um património imaterial associado à celebração da Epifania — ou festa dos Reis Magos — que vai para além da arte e encontra nas cidades, vilas e aldeias a sua tela viva, com gentes de todo o mundo a celebrarem, de forma única, esta data que encerra a quadra natalícia.
Em Espanha, é na noite de 5 de Janeiro que as crianças recebem os presentes. As cidades enchem-se para assistir à chegada ritual dos Reis. As Cabalgatas ocupam as principais artérias, transformando o espaço urbano num palco onde o mito se torna visível e a infância ocupa o centro da celebração. Depois, no silêncio doméstico, deixam-se sapatos, água e feno simbólico. Não por ingenuidade, mas por fidelidade a um gesto antigo: preparar a casa para a visita do mistério. No dia seguinte, parte-se o roscón de reyes, receita muito próxima do bolo-rei português. Tradições que se espalharam pelo antigo império colonial espanhol, como no México ou na Argentina.
Em Itália, a revelação veste-se de lenda. La Befana, figura ambígua e maternal, percorre as casas na noite dos Reis. Não é rainha nem santa, mas o eco de narrativas pré-cristãs integradas no calendário cristão, num diálogo contínuo entre o sagrado e o popular.
Na Alemanha, a Epifania caminha de porta em porta. As crianças vestem-se de Reis Magos, cantam, recolhem donativos e escrevem nas ombreiras das casas fórmulas ancestrais de bênção. No Reino Unido, a Epifania é discreta. Sobrevive nos calendários litúrgicos, nos cânticos e na memória da Twelfth Night. Não há desfiles nem bolos com surpresa, mas há o Wassail, bebida quente à base de sidra e sumo de maçã, partilhada entre cânticos de Ano Novo.
Em Portugal, a tradição dos Reis assume uma das expressões culturais mais densas e persistentes. Os Reis não se limitam a ser recordados: são cantados. O ditado “Até aos Reis é Natal” reconhece uma prática viva que ultrapassa a expressão simbólica.
O Cantar dos Reis constitui o eixo central desta vivência. Grupos percorrem aldeias e bairros, noite dentro, entoando quadras que evocam o nascimento de Jesus, a estrela e a viagem dos Reis, desejando prosperidade às casas visitadas. Em Trás-os-Montes, surgem os mascarados, cruzando cristianismo e antigos ritos de Inverno.
É também nesta região, mais concretamente em Vale do Salgueiro, pequena aldeia do concelho de Mirandela, que o Dia de Reis ganhou uma projecção inesperada. Não pela força do ritual religioso, mas por um costume local que autorizava as crianças a fumar cigarros durante a festa. Sem registos escritos que permitam datar com precisão a sua origem, a memória oral aponta para meados do século XX, num contexto rural com critérios de infância muito diferentes dos actuais. A prática, hoje amplamente conhecida pelo mediatismo nacional e internacional, foi entretanto sendo ajustada pela própria comunidade. A pressão pública e a consciência dos riscos associados ao tabaco conduziram à sua atenuação, com os cigarros a serem substituídos por outros elementos tradicionais, preservando a celebração sem o seu aspecto mais polémico.
Nas Beiras, o canto assume um carácter mais narrativo e solene. No Minho, a tradição é profundamente coral e comunitária. No Alentejo, as vozes tornam-se lentas e graves, reforçando o tom cerimonial da visita.
O presépio português reflecte uma pedagogia do tempo. Os Reis não surgem desde o início. Caminham. Aproximam-se lentamente da manjedoura. Chegam apenas no Dia de Reis, gesto simples, mas carregado de significado.
O Bolo-Rei, iguaria que remonta à corte do Rei-Sol francês e introduzida em Portugal no final do século XIX, integra este quadro simbólico como a última mesa do Natal. A sua leitura simbólica reencontra, uma vez mais, as dádivas dos Reis: a côdea representa o ouro, as frutas secas e cristalizadas evocam a mirra, e o aroma intenso da massa completa a tríade com o incenso.
Gostou do texto? Deixe abaixo a sua reação e comentário... 

