De Viana do Alentejo a um círculo de pedras mais antigo do que Stonehenge
— 3ª Crónica —
Terras de Pedra e Memória: uma viagem pela paisagem cultural do Ribatejo e Alto Alentejo ...
É provavelmente, para os mais distraídos aventureiros do asfalto, apenas mais um ponto de passagem num Alentejo rasgado por estradas que parecem não ter fim. Mas Viana do Alentejo merece que se carregue no travão. Por aqui encontramos uma das mais interessantes experiências de descoberta da vivência alentejana, entre um castelo de arquitetura invulgar, a pedra rendilhada do Manuelino e um santuário onde a fé ainda chega a cavalo, antes de rumar ao lugar onde as pedras apontam ao Cosmos e fecundam a terra.
Deixamos Arraiolos e continuamos viagem. Os montados acompanham a estrada e as casas brancas começam a surgir entre campos de cultivo, olivais, sobreiros e azinheiras. O nosso próximo destino é Viana do Alentejo, a antiga "Viana a Par d’Alvito", suficientemente próxima da "cidade-museu" que é Évora para que muitos cometam o erro de a considerar apenas um lugar de passagem. Esta Viana, tão distante da "Princesa do Lima", reparte, contudo, com a sua homónima minhota uma forte vocação romeira.
Num território relativamente pequeno encontramos motivos de sobra para uma visita que não tem necessariamente de ser fugaz. Podemos "invadir" um dos mais curiosos castelos portugueses, rezar numa notável igreja manuelina ou juntar as nossas preces aos milhares de ex-votos conservados num dos grandes santuários marianos do Alentejo. E, alargando um pouco o itinerário pela região eborense, espera-nos ainda uma viagem a um tempo tão remoto que nem as primeiras pedras de Stonehenge poderiam conhecer.
Um bom ponto de partida é caminhar pelo coração histórico da vila, seguindo uma pegada secular gravada na pedra, porque o património é a História que se toca, nas ruas e na memória das suas gentes.
A presença humana nesta região é muito anterior à formação de Portugal. Por aqui passaram diferentes comunidades pré-históricas, romanos e populações islâmicas, antes de a Viana medieval se consolidar depois da Reconquista cristã. Em 1313, D. Dinis concedeu-lhe foral e determinou a construção de uma cerca defensiva.
A paragem inaugural é precisamente o castelo, de arquitetura incomum nestas paragens. Integrado no núcleo urbano, apresenta uma planta aproximadamente pentagonal, cinco panos de muralha e torreões cilíndricos rematados por coruchéus cónicos, formas que parecem remeter mais para fortalezas do centro e norte da Europa do que para as planícies do antigo "celeiro de Portugal". O resultado é um conjunto elegante, quase palaciano, bem diferente da rudeza militar de tantas praças amuralhadas medievais.
Embora a fortificação esteja historicamente relacionada com a iniciativa de D. Dinis, aquilo que atualmente observamos resulta sobretudo de campanhas posteriores, entre os finais do século XV e o início do XVI. Surge então um nome incontornável, embora demasiadamente esquecido, da arquitetura portuguesa: Diogo de Arruda. Ligado também às transformações manuelinas do Convento de Cristo, em Tomar, o mestre participou na campanha que conferiu ao castelo boa parte da aparência que hoje conhecemos.
Classificado como Monumento Nacional desde 1910, o castelo guarda dentro das muralhas outra surpresa: a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Anunciação.
Belíssimo exemplar da arquitetura manuelina alentejana, construído no início do século XVI e com traça atribuída a Diogo de Arruda, possui um portal que nos prende o olhar. Motivos vegetalistas, formas entrelaçadas e símbolos próprios do tempo do «Venturoso» compõem uma decoração de grande minúcia. A pedra abandona o seu caráter material para se transformar numa renda mineral nas mãos dos canteiros.
No interior, três naves e elementos artísticos de diferentes épocas recordam-nos que estes templos foram sendo transformados por sucessivas gerações. Castelo e igreja formam, assim, um conjunto particularmente invulgar: caminhamos dentro de uma fortificação e, poucos metros depois, encontramos uma matriz manuelina.
Cruzando as ruas que nos conduzem para fora da vila, avistamos a planície e, nela, quase isolado do resto do mundo, surge o Santuário de Nossa Senhora d’Aires, cuja brancura contrasta com os tons secos da paisagem.

Fotografias de Artur Filipe dos Santos | Santuário de Nossa Senhora d’Aires
Confesso que, ao primeiro olhar, me recordou alguns templos do período colonial brasileiro. Se fixasse os olhos apenas no santuário e esquecesse o seu entorno, poderia imaginar-me por momentos em Salvador da Bahia ou Ouro Preto. Mas a secura do ar, sobretudo nos dias infernais do verão alentejano, rapidamente nos devolve à geografia.
O atual santuário começou a ser construído em 1743, substituindo uma ermida anterior documentada pelo menos desde o século XVI. A devoção a Nossa Senhora d’Aires foi crescendo e atraindo peregrinos de diferentes proveniências, como testemunham as milhares de oferendas conservadas junto ao templo.
Os ex-votos constituem, aliás, um dos seus aspetos mais notórios. Pinturas, fotografias e objetos agradecem graças recebidas e recordam acidentes com carros ou carroças, doenças, situações de perigo ou episódios da Guerra do Ultramar. Para além da dimensão religiosa, constituem um curioso arquivo da vida e das inquietações de sucessivas gerações.
Mas Nossa Senhora d’Aires tem outra particularidade: a sua relação com os cavalos.
A Romaria a Cavalo entre a Moita e Viana do Alentejo recuperou uma antiga tradição e tornou-se um dos acontecimentos mais conhecidos do calendário local. Em abril, centenas de cavaleiros e acompanhantes cumprem cerca de cinco dias de caminho entre o Ribatejo e o Alentejo até chegarem ao santuário, numa ligação particularmente feliz entre duas paisagens culturais profundamente associadas ao cavalo.
A devoção encontra outra expressão na Feira d’Aires. Durante séculos, as grandes festividades religiosas foram também ocasiões privilegiadas para comerciar e conviver. Junto ao santuário encontravam-se procissões, negociantes, animais, tendas, comida e milhares de visitantes, numa mistura muito própria das antigas romarias portuguesas, onde o sagrado e o profano aprenderam há muito a partilhar o mesmo terreiro.
Terminada a visita, regressamos a Évora através de um autêntico portal do tempo. Deixamos castelos medievais, pedra manuelina e santuários barrocos e recuamos mais de sete milénios, com destino ao Cromeleque dos Almendres.
Situado numa área de montado próxima de Évora, em terrenos da antiga freguesia de Guadalupe, o conjunto foi identificado na década de 1960 pelo arqueólogo Henrique Leonor Pina e constitui um dos mais importantes monumentos megalíticos da Península Ibérica.
À nossa frente surgem dezenas de menires distribuídos pelo terreno. Alguns apresentam formas trabalhadas e gravuras, mas são sobretudo as datas que tornam os Almendres extraordinários. As primeiras fases do conjunto remontam aproximadamente ao VI milénio antes de Cristo, tendo o recinto sido sucessivamente alterado e ampliado durante o Neolítico.
Ou seja, quando Stonehenge começou a adquirir as primeiras formas que hoje conhecemos, havia muitos séculos que os homens erguiam pedras nos Almendres.
O monumento britânico tornou-se mundialmente famoso. Os Almendres permanecem no segredo dos amantes de um património menos mediático, apesar da sua extraordinária antiguidade. As populações neolíticas que aqui viveram praticavam já a agricultura e a pastorícia, e erguer estes enormes blocos exigiu capacidade de organização e esforço coletivo.
A disposição das pedras também não é aleatória. O cromeleque conheceu diferentes fases de construção e algumas das suas gravuras continuam a suscitar interpretações. Há leituras que associam determinados menires a uma simbologia fálica e a antigos cultos de fertilidade, como se aquelas pedras procurassem fecundar a mãe-terra em troca de colheitas generosas e prole abundante. Outras interpretações procuram relações entre o recinto, a paisagem e fenómenos astronómicos. A arqueologia continua a procurar respostas.
E os Almendres não são o único lugar nesta viagem pelo megalitismo. A região de Évora possui uma extraordinária concentração de monumentos pré-históricos. Antas, menires e outros cromeleques, como os de Vale Maria do Meio ou da Portela de Mogos, testemunham uma ocupação humana que antecede em milhares de anos a chegada dos romanos e a própria existência de Portugal.
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