O Encanto das Aldeias em Miniatura: Pequenos Mundos, Grandes Memórias
O Encanto das Aldeias em Miniatura: Pequenos Mundos, Grandes Memórias
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O Encanto das Aldeias em Miniatura: Pequenos Mundos, Grandes Memórias
O Encanto das Aldeias em Miniatura: Pequenos Mundos, Grandes Memórias

O Encanto das Aldeias em Miniatura: Pequenos Mundos, Grandes Memórias

Aldeias em miniatura, o encanto de um mundo em ponto pequeno...

São retrato de outros tempos mas em ponto pequeno. Em Portugal e na vizinha Galiza encontramos exemplos liliputianos que descrevem casas, ofícios, trajes e uma vida em comunidade que, paulatinamente, nos parecem cada vez mais distantes. Aldeias em miniatura, preciosidades de pedra e barro que ajudam a manter, também, a criança dentro de nós.

Há paisagens culturais que não cabem na geografia do real. São demasiado exíguas para figurar nas cartografias e as suas ruas não se encontram assinaladas nas modernas aplicações de localização. No entanto, ocupam hectares infinitos de memória. Nestes pequenos mundos — como das aldeias em miniatura como a de José Franco, a de Pedro Lemos, o emblemático Portugal dos Pequenitos ou a galega “Aldea Labrega”, parece que a vida recuou para uma época mais serena. 
Apelando à construção de autênticos exercícios de imaginação, são ambientes que nos levam a desenhar a vivência de uma comunidade que, apesar de feita de gente de barro e pedra, subitamente desejamos que ganhe vida. 
Em Portugal e na vizinha mais a norte, vários desses lugares sobrevivem como cápsulas do tempo, narrativas tangíveis à escala reduzida, de uma cultura que se quis salvar da pressa moderna.

A Aldeia Típica de José Franco: o barro que fala

José Franco

Em Sobreiro, junto a Mafra (terra de moinhos de vento e de um convento-palácio magnânimo) o ceramista José Franco decidiu reduzir a escala do mundo, sem, contudo, diminuir a autenticidade da cultura e da história que sempre viveu. Na década de 1940 começou a moldar no barro o quotidiano camponês que sentia fugir-lhe, já naquela década, por entre os dedos, transformando um simples montículo junto da sua casa numa maqueta temporal, uma homenagem à sua meninice modelada em forno.  

A Aldeia Típica tornou-se, ao longo das décadas seguintes um espaço único onde as figuras “respiram” ares impolutos de tradição: padeiros amassam o pão, lavadeiras batem roupa nos tanques, as crianças de barro correm quando as de agora já não o fazem, os moinhos continuam, aqui, a girar as suas pás. 
Cada detalhe tem memória, cada gesto vira uma confissão do mundo rural que o oleiro José Franco conheceu antes que a televisão e o asfalto tomassem conta das aldeias.

À entrada, o cheiro de terra cozida mistura-se com o perfume das giestas. da maresia e do pão com chouriço da padaria ali mesmo ao lado. Caminhar por aquele espaço proporciona um folhear de uma espécie de álbum da infância coletiva de Portugal, um museu vivo onde o barro ainda tem voz.

Jorge Amado, um dos mais extraordinários autores brasileiros e do universo da língua portuguesa, não resistiu aos encantos deste pequeno cenário de Sobreiro, quando, em visita à aldeia, acompanhado da atriz Beatriz Costa, logo construiu uma amizade com o humilde ceramista, estávamos nos finais dos anos 60. Na década de 70 essa relação haveria de se reforçar ainda mais, com o escritor a redigir vários elogios tanto ao artista como à obra, destacando-se linhas que podem ser recordadas numa das entradas do rústico lugar: "A aldeia parece uma festa, no colorido, na graça, na invenção que nasce das mãos desse homem modesto e simples que, no entanto, é ao mesmo tempo sábio de profundo conhecimento e traz no coração e nos dedos o dom da criação." 

Pedro Lemos: a aldeia-desejo

Pedro Lemos

Em Agilde, Celorico de Basto, outra mão (quem sabe, inspirada pela fé da “Cidade dos Arcebispos”, a poucos quilómetros), desta vez, de um discreto artesão nas “horas vagas”, decidiu fazer o mesmo caminho. Pedro Álvaro Leão Lemos (conhecido simplesmente como Pedro Lemos) ainda pulava pelos bancos da escola quando começou, nos anos 80, a construir o seu próprio mundo na escala à sua escolha. Sem encargos oficiais, quando lhe sobrava oportunidade, sem temores de escala, ergueu pacientemente uma aldeia que respira o ritmo dos primeiros anos de vida do artista e da visão do mundo que foi descobrindo: fachadas, largos, Igrejas, cruzeiros, espigueiros, recriações de monumentos conhecidos (como o mosteiro de S. Gonçalo de Amarante), pequenas histórias encenadas em torno de poços e hortas onde não falta, sequer, a última morada da entidade corpórea, o cemitério da aldeia, é claro.
Conseguiu traduzir, à semelhança de José Franco, a cadência lenta do rural, como se o visitante fosse convidado a acompanhar o compasso da enxada ou o descanso do fim da jornada.

Portugal dos Pequenitos: pedagogia do encantamento

E em Coimbra, um país inteiro e os seus episódios mais épicos encontram-se a salvo dentro de um parque, paredes-meias com as margens do rio Mondego. O Portugal dos Pequenitos, idealizado pelo médico, professor e político Fernando Bissaya Barreto, foi inaugurado a oito de junho de 1940.
Projetado por Cassiano Branco (um dos mais importantes arquitetos modernistas portugueses, autor de espaços emblemáticos como o Coliseu do Porto, o cineteatro Éden, em Lisboa ou o Grande Hotel do Luso) transformou-se numa gigantesca ode ao nacionalismo promovido pelo Estado Novo. 

Representação idealista de uma nação idealizada e unida em torno de uma cultura que parecia igual de norte a sul (no litoral e interior), um país de casinhas brancas, monumentos reproduzidos à escala de uma criança, e um império enorme miniaturizado. Mitos desfeitos, anos mais tarde, por autores como Orlando Ribeiro. Mas, para lá da carga doutrinal, há muito que nos encanta. As ruas pequeninas convidam à descoberta, os prédios históricos (como a torre dos Clérigos, o Convento de Cristo ou a “vizinha” universidade) parecem ganhar vida sempre que as crianças correm entre réplicas de igrejas e casas típicas, não se apercebendo, de todo, que estão a percorrer o próprio imaginário nacional, livres de qualquer viés ideológico. 

Aldea Labrega: a Galiza condensada

Do outro lado do Minho, na “irmã” mais setentrional, em Ribadumia, ergue-se, coberta de musgo e líquen, a “Aldea Labrega”, projeto da Escola de Canteiros de Pontevedra, inaugurada em 2008. 
Mesmo ao lado da ribeira de Armenteira, entre a rota da Pedra e da Auga e da Variante Espiritual do Caminho Português de Santiago, a “Aldea Labrega” procura retratar as aldeias da Galiza do início do séc. XX. É incrível como neste recanto, escondido pela densa vegetação, podemos encontrar exemplos pétreos de porcos, ovelhas, crianças, escolas, igrejas, moinhos, agricultores, espigueiros. 

Manifesto de identidade galega, pedra e o silêncio convivem, e um visitante atento percebe que as figuras não são estátuas: são gestos suspensos no instante anterior à extinção, resistindo à erosão modernizadora.

Assim se descrevem estes pequenos refúgios, feitos de grandes histórias, vontades hercúleas em manter vivas as memórias de contos e ditos que já só se guardam nos livros. É como se desejássemos que, à semelhança do que acontece em filmes de desenhos animados, as gentes, as paredes, os costumes e até os animais retratados nessas aldeias, ganhassem realmente vida, assim que o último visitante do dia virasse costas.


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