Praça dos Poveiros: a história do lugar que já foi Largo de Santo André
Situada entre a Rua de Passos Manuel, a Rua de Santo Ildefonso, o início da Rua da Alegria e o Passeio de São Lázaro, a Praça dos Poveiros é um daqueles espaços onde o velho burgo se encontra com a cidade que cresceu para nascente.
Próxima a outra icónica praça — a da Batalha —, num espaço que já foi conhecido como Largo de Santo André já se começa a sentir o rumor do centro histórico, sem, contudo (e para já) renunciar à expressão bairrista, de rossio popular, de espaço quotidiano onde a vida ainda não foi inteiramente substituída pelo cenário turístico.
Hoje, é conhecida pelas esplanadas, pelos restaurantes onde abundam as mais diversas versões de francesinhas, pelos cachorros e por uma animação que se prolonga noite dentro.
Mas antes da “invasão” da restauração, este recanto foi assento de campos, hortas, vielas, lavradeiras, feiras (como a da Erva), uma capela, e até procissões de almas que, segundo a tradição, saíam do purgatório para percorrer as ruas do antigo arrabalde.
Há pouco mais de um século, ninguém procuraria a Praça dos Poveiros no mapa da cidade. O lugar era conhecido como Largo de Santo André, designação que herdara de uma pequena capela dedicada aos mártires Santo André (apóstolo de Cristo e padroeiro da Escócia e, já agora, da freguesia de Sobrado, em Valongo) e Santo Estêvão (o primeiro mártir do cristianismo, padroeiro das Festas dos Rapazes da Terra Fria Transmontana).
A origem do templo perde-se na penumbra documental. Durante muito tempo, repetiu-se que teria sido fundado em finais do século XVII, talvez em 1685. Porém, a investigação toponímica recua bastante mais: um tombo de 1497 já menciona aquele território de Santo Ildefonso como caminho para “Sam Estévão”.
O beneditino Manuel Pereira de Novais, autor da seiscentista “Anacrisis Historial, chegou mesmo a atribuir-lhe uma antiguidade quase fabulosa, fazendo-a remontar aos tempos dos Godos. Era, naturalmente, uma leitura típica de uma época em que a história se misturava sem grande pudor com a tradição, o mito e a devoção e uma grande dose de superstição.

Imagem | Capela de Santo André, desenho de Francisco José de Sousa, 1856
A capela, modesta na dimensão, possuía uma fachada de linhas barrocas, campanário lateral, escadaria frontal e um pequeno adro. Não seria um monumento de aparato, mas integrava-se naquele Porto de escala humana, feito de caminhos estreitos, muros baixos, hortas, quintais e construções religiosas que serviam de referência às populações cercanas.
A Capela de Santo André e Santo Estêvão não servia apenas o culto dos dois mártires. No seu interior existia também um retábulo dedicado às Almas do Purgatório, devoção profundamente enraizada na religiosidade popular portuguesa.
A tradição oral acrescentou-lhe uma nota de assombração, como convém a tantos lugares antigos desta cidade. Dizia-se que, em determinadas noites, a porta do templo se abria para permitir que as almas saíssem em procissão (como as Santas Compañas galegas). Não sabemos se levavam velas, se caminhavam em silêncio ou se alguém alguma vez garantiu tê-las visto, pois as lendas raramente se preocupam com semelhantes minudências.
O Largo de Santo André ficava então fora do núcleo urbano mais denso, enclausurado pela Cerca Velha e a muralha Fernandina. Era um lugar de transição entre a cidade murada e os territórios rurais de Santo Ildefonso, Campanhã e Paranhos naquela época pertencente às terras da Maia). A própria toponímia das imediações conservou durante muito tempo essa memória campestre: Beco do Arrabalde, Viela do Pedregulho, Rua do Campinho, Largo da Ramadinha, Viela do Caramujo ou Viela dos Pardieiros.
Durante muitos anos, foi igualmente conhecido como Feira da Erva. O nome não resultava de qualquer metáfora poética ou alusão a qualquer substância psicotrópica. O nome resultava da existência de um antigo mercado de produtos frescos, onde, aos sábados, se realizava uma importante venda de erva destinada à alimentação dos animais que ainda faziam parte da paisagem urbana.
Nos outros dias da semana, o terreiro recebia o mercado das hortaliças. Vinham sobretudo as lavradeiras de Gondomar, carregadas de legumes, couves, cebolas e outros produtos cultivados nas férteis terras vizinhas. Mulheres de força, habituadas às madrugadas frias e aos caminhos longos, que entravam no Porto com a produção acomodada em cestos e canastras.
Quando uma revolta de pescadores ofereceu nova toponímia ao velho largo
O século XIX transformou profundamente o Porto. A cidade rompeu os limites tradicionais, abriu novas artérias, regularizou alinhamentos e procurou adaptar-se às exigências da circulação moderna. O urbanismo liberal tinha pouca paciência para vielas tortuosas, becos insalubres e edifícios que se atravessassem no caminho das novas ruas.
Foi nesse contexto que se decidiu prolongar a Rua da Alegria. Esta descia das imediações do antigo Largo da Aguardente, atual Praça do Marquês de Pombal, mas terminava na zona então conhecida por Malmerendas, correspondente aproximadamente à atual Rua de Alves da Veiga.
Para a fazer avançar até ao Largo de Santo André era necessário sacrificar construções antigas. Entre elas encontrava-se a capela.
Em 1863, o templo de Santo André e Santo Estêvão foi demolido. Com ele desapareceu um dos mais pitorescos recantos do Porto antigo, mais tarde evocado por estudiosos como Pedro Vitorino, Horácio Marçal e Eugénio Andrea da Cunha e Freitas.
A demolição levou também consigo a Viela do Caramujo, alargada para servir de leito à continuação da Rua da Alegria. O curioso topónimo poderá ter nascido da alcunha de algum proprietário local. A documentação portuense conheceu, pelo menos, um André Gonçalves, chamado “o Caramujo”, residente em Miragaia no final do século XVI, e um João Álvares Caramujo, ligado no século seguinte à instituição de uma capela na Igreja de São Lourenço, conhecida como Igreja dos Grilos.
As transformações não terminaram com a demolição da capela. Em 1916, novas obras alteraram o largo, fazendo desaparecer parte da Rua e da Travessa de Santo André e a Viela dos Pardieiros, continuação da Rua do Campinho.
Poucos anos depois, o antigo Largo de Santo André recebeu o nome que conserva: Praça dos Poveiros.
A designação não terá resultado apenas da presença de naturais da Póvoa de Varzim no Porto. Terá constituído uma homenagem aos pescadores poveiros residentes no Brasil que resistiram a uma lei destinada a obrigá-los a adquirir a nacionalidade brasileira.
O quiosque que viajou pela cidade
Entre as pequenas histórias ligadas ao lugar, merece referência o chamado Quiosque da Ramadinha. Embora o nome sugira outra localização, o quiosque foi originalmente instalado no antigo Largo de Santo André, já transformado em Praça dos Poveiros.
Em 1930, encontrava-se em funcionamento e pertencia a Manuel António Valdrez. Era uma pequena construção de madeira, com planta hexagonal, cobertura recortada e acentuada verticalidade. Três das suas faces possuíam janelas de guilhotina, cujas portadas se levantavam para formar balcões.
Em 1948, a Câmara Municipal transferiu-o para o vizinho Largo da Ramadinha. Em 1992, o exemplar original foi substituído por uma réplica. Classificado como imóvel de interesse municipal em 1996, voltou a ser deslocado durante as obras de requalificação urbana, encontrando-se hoje na Praça de Carlos Alberto, diante do Palácio dos Viscondes de Balsemão.
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