Rota das Amendoeiras em Flor no Douro Superior e Nordeste Transmontano
A Rota das Amendoeiras entre vilas e castelos do Nordeste transmontano e da Beira Alta...
Todos os anos, o território do Nordeste Transmontano, da Beira Alta, mas também do Algarve, assiste à floração da amendoeira, cobrindo de branco vales e montes. Prenúncio da Primavera, o espetáculo das amendoeiras em flor atrai milhares de turistas, nacionais e estrangeiros, em busca de rotas paisagísticas e de gastronomia de exceção.
Há anos que, entre fevereiro e março, o calendário português guarda a negrito três semanas em que o inverno abranda e, sem pedir licença, a paisagem se transforma num lençol de branco imaculado. Não é ainda primavera, mas também já não é o rigor da estação fria. É o tempo das amendoeiras em flor, milagre discreto que pinta de branco e rosa as encostas do Nordeste Transmontano e da Beira Alta, criando um dos mais belos cenários do território português.
A Rota da Amendoeira em Flor é um itinerário que permite ao viajante folhear a paisagem e as tradições em torno da floração da amendoeira que atinge, por volta da última semana de fevereiro e dos primeiros quinze dias de março, o seu esplendor. Forma-se assim um roteiro de identidade, de memória agrícola, de resistência demográfica e de património cultural, onde natureza e história caminham lado a lado.
As terras interiores da raia, tantas vezes esquecidas, tornam-se palco de uma das mais delicadas manifestações da paisagem natural portuguesa.
A amendoeira: do Mediterrâneo à Ibéria
O nome científico é Prunus dulcis e tem origem na Ásia Central e no Médio Oriente. A amendoeira era cultivada na Antiguidade pelos povos da Mesopotâmia e da Pérsia, tendo sido mais tarde difundida pelos fenícios ao longo das rotas comerciais do Mediterrâneo. Os gregos e, posteriormente, os romanos consolidaram o seu cultivo nas regiões de clima mais seco.
Na Península Ibérica, embora existam indícios de presença anterior, foi sobretudo com a expansão islâmica, a partir do século VIII, que a cultura da amendoeira conheceu um verdadeiro impulso.
Os muçulmanos trouxeram consigo técnicas agrícolas avançadas, sistemas de regadio (como o moinho de azenha, que em árabe as-sāniya significa literalmente “roda de irrigação”), novas variedades e uma conceção refinada da paisagem produtiva. No contexto de Al-Andalus, a amendoeira integrou-se naturalmente nas zonas mais áridas do sul — com destaque para o Algarve — e do interior, onde a sua rusticidade constituía uma vantagem.
Com a Reconquista Cristã e a progressiva formação do reino de Portugal, a cultura manteve-se e expandiu-se para regiões como Trás-os-Montes e a Beira Interior. A árvore adaptou-se admiravelmente aos solos pobres, aos invernos rigorosos e aos verões secos do interior norte, tornando-se parte integrante da economia agrícola local dos territórios que compõem a Terra Quente Transmontana.
Assim, quando hoje contemplamos as encostas floridas do Douro Superior, vivenciamos um legado milenar, fruto de sucessivas camadas civilizacionais.
Da lenda à consagração do património paisagístico e cultural da amendoeira em flor
A presença antiga da amendoeira moldou a criação de diversas narrativas, lendas e tradições. Conta-se, em várias versões difundidas no território ibérico, que um rei mouro, para consolar a sua esposa nórdica saudosa da neve, mandou plantar milhares de amendoeiras. Quando floriram, as encostas cobriram-se de branco, recriando a memória distante do inverno do país natal da rainha, oriunda das latitudes setentrionais.
História ou metáfora, a lenda traduz uma simbologia profunda que merece reflexão: a ideia de que a paisagem também se constrói através de um exercício de imaginação.
As flores da amendoeira duram pouco. Basta um vento mais forte ou uma chuva inesperada e o chão cobre-se de pétalas, como se de neve tardia se tratasse. Talvez seja essa efemeridade que intensifica o encanto, transformando a expectativa num rápido assomo de saudade.
As principais rotas da amendoeira em flor no Norte de Portugal concentram-se no Douro Superior e no Nordeste Transmontano, tendo como epicentro Vila Nova de Foz Côa, frequentemente designada como a “Capital da Amendoeira em Flor”.
Mais a sul e a leste, a rota abrange zonas como Alfândega da Fé — e o seu emblemático Santuário dos Cerejais —, Figueira de Castelo Rodrigo e Mêda, ligando a beleza natural às Aldeias Históricas.
Já no extremo nordeste, Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo e Mogadouro proporcionam cenários únicos junto às arribas do Douro Internacional. A rota estende-se ainda ao território beirão, abrangendo Pinhel, no distrito da Guarda.
E a amendoeira em flor é apenas o pretexto que leva o viajante a descobrir o rico património cultural de vilas e aldeias, castelos, muralhas e fortalezas que guardam ainda hoje o eco de ferozes combates transfronteiriços, bem como mesas fartas com o melhor que a gastronomia raiana pode oferecer.
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