A Capela dos Três Reis Magos ou dos “Gaiteiros”
A Capela dos Três Reis Magos ou dos “Gaiteiros”
A Capela dos Três Reis Magos ou dos “Gaiteiros”
A Capela dos Três Reis Magos ou dos “Gaiteiros”

A Capela dos Três Reis Magos ou dos “Gaiteiros”

Ciclo “Histórias que o Porto Conta”

A festa de Reis foi, durante séculos, uma das mais importantes comemorações religiosas e populares na cidade do Porto, competindo ano após ano com a noite de S. João. Durante quase 200 anos a Invicta albergou uma capela evocativa dos três Reis Magos, demolida aquando da abertura da Avenida dos Aliados. Era conhecida, popularmente, como a “Capela dos Gaiteiros”

A cidade do Porto tem uma longa tradição em celebrar as datas mais importantes do calendário religioso relacionadas com a Sagrada Família. Existem registos de festejos em honra da Natividade de Nossa Senhora, que se celebra a oito de setembro, estando a memória desta efeméride gravada na história toponímica da cidade do Porto.

Antes da Praça da Liberdade, o lugar que hoje conhecemos teve muitos nomes, como por exemplo Campo das Hortas, Praça Nova ou ainda Praça D. Pedro IV.
Mas também foi conhecida como Largo ou Praça da Natividade, por aqui se ter encontrado, desde o séc. XVII, uma fonte com o mesmo nome, entre a praça e a rua dos Clérigos, que anteriormente se chamava, precisamente, “Calçada da Natividade”.

O Dia da Natividade de Nossa Senhora é celebrado exatamente 9 meses depois do dia da Imaculada Conceição e procura celebrar o nascimento de Maria, mãe de Jesus.
A marcar a relação com a cidade do Porto com a Sagrada Família está também a Igreja de S. José das Taipas, de evocação ao esposo de Maria, erguida entre o séc. XVIII e XIX, mais concretamente entre os anos de 1795 e 1878.

Contudo, uma outra evocação esteve durante muito tempo presente na história viva da cidade: a tradição de celebrar os Reis Magos.
As festas em honra aos Reis Magos eram de tal maneira importantes que chegavam a ombrear com os festejos de S. João e durante mais de 200 anos houve uma capela evocativa, onde é hoje a Praça da Liberdade, mais precisamente onde se encontra a estátua da “Menina Nua”.

Nesse local, foi erguido por volta de 1717 um palacete, mandado construir pela família do fidalgo José Monteiro Moreira, casado com Josefa Joana de Salazar.
Mais tarde capela particular de Inácio Leite Pereira de Almada, que a vendeu, juntamente com o palacete, à Câmara do Porto. Nos dias de reunião da vereação portuense era celebrada uma missa no interior da capela. 

Em 1752 havia já muito tempo que o palacete não servia como residência familiar. Funcionou na antiga casa brasonada, durante alguns anos, o tribunal da Relação, para passar mais tarde para o edifício da Cordoaria, cuja atual edificação, de pendor neoclássico, data de 1767, manda construir por João de Almada e Melo, o primeiro dos dois célebres “Almadas” do Porto.

Em 1816, o Município adquiriu o imóvel por 31.265$960 à Real Companhia Velha, que, naquela altura, era a proprietária do edifício.
Na fachada nascente do edifício, nas traseiras do edifício que assim se viria a tornar a sede da edilidade portuense, encontrava-se a Capela dos Reis Magos, também conhecida como a “Capela dos Gaiteiros”, pois era habitual grupos de tocadores deste ancestral instrumento aqui se juntarem para celebrarem tanto a festa dos Reis como o Corpo de Deus.

Para os amantes da música, e deste instrumento em particular, vale a pena partilhar a curiosidade de que a figura do gaiteiro encontra-se intimamente ligada, de uma forma simbólica, ao nascimento de Jesus e à metáfora do presépio, a partir do período barroco, com o gaiteiro a representar a figura do “Bom Pastor” que vai pelas terras anunciar a boa-nova, aparecendo, com grande regularidade, nos presépios construídos, inicialmente em Itália (com destaque para os presépios napolitanos) e, depois, um pouco pelos países mediterrânicos.

Quando a 21 de agosto de 1819, a Câmara Municipal do Porto se instalou no antigo palacete Monteiro Moreia, a Edilidade manteve a capela aberta, com a manutenção de culto, com destaque para as missas e festejo do dia de Reis.

Na altura da abertura da Avenida dos Aliados, em 1916, no momento em que o edifício da edilidade foi demolido, também a capela iria conhecer fim semelhante.

Capela dos Reis desmantelada

Fotografia | Demolição do antigo edifício da Câmara Municipal, em 1916. A capela foi comprada por 400$ e transportada, pedra por pedra, para a Pocariça, em Cantanhede. (Gisaweb)

Quis a providência que Manuel Evaristo Pessoa, um rico proprietário de Cantanhede, comprasse a capela pelo valor de 400$00 (quatrocentos escudos).
Pedra por pedra a capela foi desmontada. Manuel Evaristo Pessoa desembolsou mais 800$00 para transportar a capela para a Pocariça, no concelho de Cantanhede.

Capela dos Reis

Fotografia | Manuel Evaristo Pessoa pagou 800$ para transportar a capela por comboio. Ainda hoje a capela encontra-se na Pocariça, desta feita sob a evocação de S. Tomé. (Rota da Bairrada).

Quando a mandou reedificar, precisamente na Pocariça, alterou o nome e orago da capela, passando esta a chamar-se de Capela de S. Tomé.

Manuel Evaristo Pessoa que se tornou um benemérito da freguesia, destacando-se o apoio que o proprietário ofereceu a escolas e à Associação Musical da Pocariça, chegando a oferecer um terreno para a construção da sede própria desta associação.

Existem relatos de se festejarem os Reis Magos no Porto desde o séc. XV. Mais tarde, no séc. XVIII, as festas ganharam, com a construção da capela dos Reis Magos (dos Três Reis Magos ou dos Gaiteiros” uma nova centralidade.

Capela dos Gaiteiros

Fotografia | Capela dos Reis Magos, conhecida popularmente como a Capela dos Gaiteiros. (Gisaweb)

Segundo o jornalista e historiador da cidade, Germano Silva, “grupos de pessoas, mais ou menos organizados, por ruas — a trupe das Eirinhas; por profissões — o grupo dos empregados da Carris; por coletividades – os reiseiros dos Unidinhos da Sé, percorriam as ruas da cidade cantando os reis de porta em porta, sempre de noite, em atenção ao pormenor de os Magos terem sido guiados por uma estrela, logo de noite”.
Com a demolição da capela, a festa perde o seu fulgor, mantendo-se, contudo ativa, mas sem a pujança de outros tempos.

Um pouco pelo centro histórico a referência aos três Reis Magos (cuja grande simbologia reside no facto de estes representarem os continentes conhecidos à época de Jesus: Europa, África e Ásia) ainda se encontra presente.
Por exemplo, na igreja do Colégio de S. Lourenço, mais conhecida como Igreja dos Grilos, ainda hoje se conserva, num dos altares laterais à capela-mor, uma peça escultórica composta pelos reis-magos.

Na Sé do Porto, mais concretamente na sua extraordinária sacristia, cujos tetos foram pintados por, nada mais, nada menos, Nicolau Nasoni, encontramos uma pintura que se encontrava no altar-mor da catedral, obra do séc. XVII, de Francisco Correia, que retrata a Adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus.

Refira-se que esta pintura pertence a um conjunto de oito quadros de uma estrutura retabular que se encontrava, inicialmente, na antiga capela-mor, que visam retratar cenas da Natividade e infância de Jesus.

Também na capela de S. Vicente, espaço que se encontra no claustro novo da Sé, encontramos um alto-relevo dos Reis-Magos a serem recebidos por Herodes.

Finalmente, na Igreja de S. José das Taipas e no Núcleo Museológico da Confraria das Almas do Corpo Santos de Massarelos, encontramos dois belíssimos presépios do séc. XVIII, da autoria do famoso escultor Machado de Castro, autor, entre muitas obras, da estátua equestre de D. José I, que se encontra da Praça do Comércio, em Lisboa. Os presépios de um dos maiores génios da arte escultórica europeia da centúria de 700 têm a particularidade de retratarem cenas da vida quotidiana do seu tempo, ao mesmo tempo que se podem contemplar a presença não de três, mas de quatro Reis Magos, aludindo à simbologia dos Reis como dignitário de cada continente. Machado de Castro incluiu um quarto Rei, envergando indumentária típica dos nativos da América do Sul, representando assim o continente americano.


Fotografia de capa | Na imagem, à esquerda ao fundo, encontramos a Capela dos Reis Magos. Em frente, para norte, em direção ao antigo bairro do Laranjal, entramos o edifício do emblemático hotel de Francfort. Demolido em 1916, para abertura da Avenida dos Aliados, foi um das mais importantes unidades hoteleiras da cidade. (Gisaweb)


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