Quando a Europa Veste a Máscara: Tradições de Inverno que Desafiam o Tempo
Quando a Europa Veste a Máscara: Tradições de Inverno que Desafiam o Tempo
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Quando a Europa Veste a Máscara: Tradições de Inverno que Desafiam o Tempo
Quando a Europa Veste a Máscara: Tradições de Inverno que Desafiam o Tempo

Quando a Europa Veste a Máscara: Tradições de Inverno que Desafiam o Tempo

A Europa que ainda chocalha: Máscaras, Inverno e Rituais antigos...

É no tempo do Inverno que a Europa se transfigura e parece recordar-se de si própria. Profunda, telúrica e inquieta, reconhece-se no frio, na noite mais longa, nos sons metálicos dos chocalhos, nas madeiras a estalar ao fogo das lareiras, dissonâncias que rompem o silêncio das aldeias. É o tempo hibernal que chega e o homem, desde sempre, responde vestindo a máscara, chocalhando e caminhando pelas ruas, ao som de gaitas e flautas, caixas e tambores, como se convocasse forças antigas, anteriores à palavra escrita e ao calendário cristão. É no limiar entre o medo e a celebração, entre o sagrado e o pagão, que se desenha um continente que ainda sabe chocalhar.

Por vezes, a invernia não admite meias medidas. Inevitável, adentra escura, trémula, chuvosa, conforme a vontade climática. É precisamente nesse tempo liminar, entre a morte aparente da natureza e a promessa do seu regresso, que o homem europeu — desde eras que historiadores e antropólogos procuram exumar — decidiu vestir a máscara, fazer ruído, inverter a ordem e romper pelas comunidades rurais como se encarnasse algo que já não é inteiramente humano.

Há nestes rituais de Inverno uma hierofania discreta, inscrita num território simbólico onde habitam os Caretos de Podence, mas também os da Bemposta, de Ousilhão, de Varge, os de Lazarim ou mesmo aqueles que se perderam, como os da Lagoa, no concelho de Mira. Se hoje renascem pelo nordeste transmontano e pelo extremo norte beirão, houve um tempo em que se espalharam por parte do território da antiga Lusitânia.

O careto não enverga uma fantasia: reencarna uma linhagem. Ao colocar a máscara — de metal ou cartão em Podence e Ousilhão; de madeira de amieiro em Lazarim — e as vestes coloridas ou feitas de barbas de milho e palha, suspende-se a identidade quotidiana. Entra-se numa espacialidade ambígua onde o riso convive com o temor, a corte com a vingança, a festa com o abismo. O chocalho, preso à cintura, ultrapassa o simples adereço. Cada badalada é um chamamento, um gesto apotropaico, uma forma de acordar a terra adormecida e lembrar que o ciclo continuará.

Esta gramática simbólica não é exclusiva da Ibéria castreja, celtizada ou romana. Espalha-se pela Europa como um itinerário antigo que resistiu aos Césares, à cristianização e à modernidade.

Mamuthones

Mamuthones | Imagem criada por AI

Na Sardenha, em Mamoiada, surgem os Mamuthones, acompanhados pelos Issohadores, figuras densas, cobertas de peles escuras, carregando dezenas de chocalhos pesados. Caminham em cadência lenta, quase mecanizada, como num ato de expiação coletiva. No seu silêncio há algo de profundamente numinoso, no sentido que Rudolf Otto atribuiu ao sagrado que fascina e assusta.

Kukeri

Kukeri | Imagem criada por AI

Na Bulgária, os Kukeri usam máscaras zoomórficas e enormes campainhas para expulsar os maus espíritos do Inverno e garantir boas colheitas.

Busójárás de Mohács

Busójárás de Mohács | Imagem criada por AI

Na Hungria, o Busójárás de Mohács revive a mesma lógica de ruído e máscaras demoníacas.

Perchtenlauf

 Perchtenlauf  | Imagem criada por AI

Nos Alpes austríacos e bávaros, os Perchtenlauf percorrem aldeias em procissões noturnas. Na Britânia, os Mummers dançam. Na Escócia e Irlanda, os Guisers evocam o Samhain celta.

Com a cristianização, estes rituais não desapareceram. Foram enquadrados no calendário litúrgico, associados ao Dia de Todos os Santos, ao Natal, ao Dia de Santo Estêvão ou ao Entrudo.
Talvez porque o mundo se encontra saturado de telas e ecrãs, estes velhos ritos renascem por todo o Velho Continente, ávido por manter vivas as suas raízes e a sua cultura comum. Assim, todos os anos, quando o frio aperta e a noite se alonga, o homem europeu sente ainda a necessidade de vestir a máscara, sair à rua, chocalhar e fazer ruído, como se disso dependesse o regresso do sol invencível e o renascer da natureza.


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