Estranho, não entranho: viver num mundo ao avesso
Pessoa, Fernando Pessoa, a propósito da publicidade que realizou para uma conhecida marca de refrigerantes dizia: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Mote que me fez pensar na realidade presente, ela própria estranha, ambígua, ambivalente, polarizada.
A estranheza manifesta-se como incómodo, desconforto, despersonalização — como integrar as mudanças velozes e vorazes da sociedade contemporânea? Este ser mais, este fazer mais, este chegar primeiro, este agarrar para não perder. Pré-formar em vez de ser o que se é, de se mostrar para além dos enredos, de ir além das histórias fabricadas. Isto causa náusea. Não se entranha, estranhe-se.
A tentativa de antecipar o que quer que seja, ainda que deformando a realidade, virou moda. Existe uma aproximação a algo antes da sua realização final, andamos não sei para onde, num esboço que se quer realizar antes do seu acabamento. Seja uma quase relação, uma quase profissão, umas quase férias, um quase sucesso. Uma quase vida, sobrevive-se, não se vive. Neste engodo que engorda o pequeno ego, a realização é algo fantasiadamente realizado, ainda que se trate de uma realização dissimulada, algo bem mais próximo de um desejo fantasiado, pré-formado oniricamente do que algo que toque verdadeiramente as necessidades, o ser e o estar essencial da pessoa.
Existe um sentimento crescente de avesso, de uma vida quotidiana de pernas para o ar. Existe o sentimento de estarmos a viver uma realidade paralela. Uma realidade distante de um viver sentidamente e racionalmente humano e humanizante. A verdade passou a mentira, a luz a sombra, a atenção a indiferença, o eu a um outro, o amor transformou-se em desamor, a paz em guerra, a Vida em morte.
Vivemos num mundo ao avesso — estranho, não entranho.
Não entranho, nem tenho que entranhar. Hoje vangloria-se uma inteligência artificial, que nos inebria num jogo sedutor de crescente omnipotência, e fá-lo ao custo do definhamento da real inteligência vital. Hoje dançamos a canção do bandido, dançamos a música dos outros. Uma música em que nos marcam o passo, orientam o destino, determinam o ritmo. Deixamo-nos levar sem escolher se queremos ou não entrar na dança, deixamos de escolher com quem queremos dançar, deixamos de escolher a música que nos acompanha, aquela que queremos dançar.
Vivemos num mundo ao avesso — estranho, não entranho.
Podemos assistir à dança, esperar a nova música. Podemos sair à procura de outro modo de estar e dançar a vida.
O estranhamento é sintoma do indefinido, do ambíguo, daquilo que se oculta em intenções obscuras que intuímos mas que ainda não conseguimos nomear, clarificar, desocultar.
Estranha-se, mas não se entranha, talvez seja esse, pelo menos para já, o modo de sair da náusea, ainda que temporariamente.
O menino dança? A menina dança?
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