Arraiolos, uma vila bordada à mão
Arraiolos, uma vila bordada à mão
Arraiolos, uma vila bordada à mão
Arraiolos, uma vila bordada à mão
Arraiolos, uma vila bordada à mão
Arraiolos, uma vila bordada à mão
Arraiolos, uma vila bordada à mão

Arraiolos, uma vila bordada à mão

— 2ª Crónica —
Terras de Pedra e Memória: uma viagem pela paisagem cultural do Ribatejo e Alto Alentejo ...

É uma das vilas mais icónicas do Alto Alentejo. Conhecida pelos seus tapetes com padrões inspirados na cultura muçulmana e oriental, Arraiolos tem muito a oferecer, tanto de património imaterial, como edificado. Vale a pena descobrir Arraiolos para além do ponto do seu bordado.

Ainda com o paladar da sopa de pedra, segue-se viagem, abandonando o Ribatejo e entrando no Alentejo mais setentrional, que do seu alto se avista o Tejo e se deseja embrenhar pelas aldeias de casas brancas e as suas vilas fortificadas. Próxima paragem: Arraiolos.

Quem chega à icónica “Vila dos Tapetes” pela estrada de Évora encontra uma imagem difícil de ignorar. Uma enorme cadeira alentejana, acompanhada por uma tesoura e um novelo, anuncia que entrámos na terra do famoso “ponto de Arraiolos”. A peça, inaugurada em 2017, recupera a forma das pequenas cadeiras de madeira usadas tradicionalmente pelas bordadeiras e presta homenagem a uma atividade que acabou por levar o nome desta vila alentejana muito para além das fronteiras de Portugal. Um pouco mais acima, no Monte de São Pedro, o castelo com a sua enigmática forma completa a apresentação. E porque não começar pelo seu reduto acastelado?

Arraiolos fica a pouco mais de vinte quilómetros de Évora, numa paisagem de suaves elevações, montado, olival e terrenos que durante muito tempo viveram sobretudo da agricultura e da pecuária. A presença humana nesta região, contudo, começou muito antes da formação da vila. O território conserva ainda vestígios de ocupação desde o Neolítico e o Calcolítico, seguindo-se testemunhos das Idades do Bronze e do Ferro e também da presença romana. A localização do monte que domina a atual povoação, com ampla visibilidade sobre os campos em redor, ajuda a perceber a importância estratégica que este lugar viria a adquirir.
Na Idade Média, Arraiolos entrou definitivamente na documentação portuguesa. Em 1217, D. Afonso II (O Bolonhês) doou estas terras ao bispo e ao cabido da sé eborense. Mais tarde, D. Dinis (O Lavrador) concedeu foral à povoação e mandou levantar a fortificação que ainda hoje domina a vila. A construção iniciou-se nos primeiros anos do século XIV e resultou num dos castelos mais curiosos do país.

Um castelo quase redondo

castelo Arraiolos

Fotografias por Artur Filipe dos Santos

O Castelo de Arraiolos chama a atenção pela muralha de configuração circular, ou melhor, aproximadamente elíptica, uma solução rara na arquitetura militar medieval portuguesa. Esta obra começou em 1306, durante o reinado de D. Dinis, e no interior da cerca ficaram instaladas a antiga povoação e a Igreja do Salvador.
Mais tarde a vila cruzou os limites do castelo e foi crescendo em torno das ruas e espaços que hoje formam o pacato centro histórico. 

Arraiolos esteve também ligada a algumas das principais famílias da nobreza portuguesa. O título de Conde de Arraiolos passou por figuras como Álvaro Pires de Castro, irmão de Inês de Castro, e, mais tarde, por D. Nuno Álvares Pereira. A ligação à família do Condestável aproximaria Arraiolos da Sereníssima Casa de Bragança, titular da última dinastia reinante em Portugal. Beatriz Pereira de Alvim, filha única de Nuno Álvares Pereira, casou com D. Afonso, filho de D. João I (O da Boa Memória) e futuro primeiro Duque de Bragança. 
Em 1511, D. Manuel I (O Venturoso) concedeu novo foral à vila. Nessa altura, porém, Arraiolos já começava a assumir uma organização urbana diferente daquela que nascera dentro das muralhas. A vida fazia-se cada vez mais cá em baixo.
É também no centro que encontramos alguns dos edifícios que merecem uma visita mais demorada. A Igreja da Misericórdia, cuja construção começou em 1585, possui um interior onde se destacam os painéis de azulejos. A Santa Casa tinha sido instituída algumas décadas antes, em 1524, e recebeu o apoio de D. Teodósio II, Duque de Bragança e Conde de Arraiolos. O antigo Hospital do Espírito Santo acabaria, por sua vez, ligado à história recente da preservação do património local, acolhendo o Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos.
Porque podemos falar do castelo, das igrejas, das casas caiadas ou das ruas da vila, mas é o tapete que tornou Arraiolos imediatamente reconhecível, tanto a nível nacional como além-fronteiras.

A origem do tapete de Arraiolos

tapetes de arraiolos

Foram muitas as hipóteses avançadas para explicar a origem deste notável exemplo de património imaterial.. Durante muito tempo repetiu-se que os Tapetes de Arraiolos teriam uma origem mourisca e que a sua produção estaria relacionada com artesãos muçulmanos que permaneceram na região ou que aqui se instalaram depois das medidas tomadas por D. Manuel I contra judeus e muçulmanos no final do século XV. A influência oriental presente em muitos dos motivos decorativos dos exemplares antigos ajudou a alimentar esta explicação. Mas havia um problema latente, isto é, a falta de  documentação que corroborasse esta tese inicial. Até hoje não apareceu uma prova que permita atribuir diretamente a criação dos tapetes a uma comunidade mourisca de Arraiolos. Existem influências orientais evidentes e há uma longa tradição têxtil local, mas transformar estes dados numa certeza sobre a origem seria ir além daquilo que as fontes permitem afirmar. 

A referência escrita mais antiga conhecida a um tapete produzido na terra data de 1598. Surge no inventário dos bens de Catarina Rodrigues, mulher de João Lourenço, lavrador da herdade de Bolelos. Entre aquilo que possuíam encontrava-se “hum tapete da tera novo”, avaliado em dois mil réis. Dez anos depois, em 1608, o inventário de Juliana Dordio, moradora na Rua da Cruz, regista “hum tapete por acabar”, juntamente com novelos e lã destinada à sua confeção. O historiador Jorge Fonseca, no seu artigo  Tapetes de Arraiolos: Novos elementos para a sua história, publicado na revista Almansor levantou, a propósito deste documento, uma pergunta bastante interessante: terá sido Juliana Dordio a mais antiga bordadeira de Arraiolos cujo nome chegou até nós?

Os documentos do século XVI mostram ainda que Arraiolos possuía todas as condições para desenvolver esta atividade. Havia lã em abundância e uma parte considerável da população trabalhava nos ofícios têxteis. Em 1573, entre 122 moradores da vila cuja profissão ficou registada para efeitos fiscais, 31 exerciam atividades relacionadas com este setor: tecelões, cardadores, pisoeiros, tosadores, um tintureiro e um surrador. É um dado relevante porque a confeção de um tapete dependia precisamente da preparação da lã, da sua tinturaria e da produção da tela onde seria executado o bordado.
A arqueologia acrescentou entretanto outra peça à investigação. Nas escavações realizadas na Praça do Município foram identificadas estruturas relacionadas com antigas atividades de tinturaria. Em amostras aí recolhidas foram detetados vestígios de lã de ovelha e de Rubia tinctorum, planta utilizada para obter tonalidades avermelhadas. São dados que permitem recuar a importância da atividade têxtil em Arraiolos para um período anterior às primeiras referências escritas aos tapetes.

A técnica também se distingue facilmente. O tapete é bordado à mão, tradicionalmente com lã, sobre uma tela resistente. O chamado ponto de Arraiolos é um ponto cruzado oblíquo, executado segundo a contagem dos fios da tela, sobre a qual se vão formando os desenhos. Primeiro surgem os contornos, depois os motivos e finalmente o fundo. Flores, ramagens, medalhões, figuras e padrões geométricos foram mudando conforme as épocas e os gostos. Os exemplares antigos mostram influências orientais, posteriormente reinterpretadas pelas bordadeiras portuguesas.
Há outra curiosidade. Hoje associamos muitas vezes os tapetes antigos a cores relativamente suaves. Nem sempre foi assim. Estudos realizados sobre exemplares dos séculos XVII, XVIII e XIX demonstraram que várias dessas peças tiveram originalmente vermelhos, azuis e verdes bastante mais fortes. A exposição à luz fez o resto. Quando o aristocrata e romancista inglês William Beckford passou por Arraiolos em 1787, descreveu os tapetes que ali encontrou precisamente pelo carácter vivo e intenso das suas cores.

No século XVIII a produção cresceu, mas o século XIX trouxe dificuldades. Os produtos fabricados industrialmente concorriam com um trabalho demorado e inteiramente manual, levando a uma quebra da produção. Já no século XX surgiram iniciativas destinadas a recuperar desenhos antigos, preservar a técnica e devolver notoriedade ao Tapete de Arraiolos. A confeção manteve-se, em boa parte, ligada ao trabalho feminino e ao espaço doméstico. Bordava-se dentro de casa, mas também à porta, aproveitando a luz e a conversa das vizinhas. E aqui regressamos às pequenas cadeiras de madeira, cujo exemplo em tamanho gigante pudemos apreciar à entrada da vila.

Cadeira Arraiolos

Ver imagem completa na galeria de fotografias.

As cadeiras usadas pelas bordadeiras são bem mais pequenas, baixas até, de madeira pintada segundo a tradição eborense, permitindo uma posição adequada para as bordadeiras trabalharem durante várias horas. Estão de tal forma associadas ao ofício que a ficha do Processo de Confeção do Tapete de Arraiolos, inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, inclui expressamente a cadeira entre os utensílios utilizados pelas artesãs. 

Também o Monumento à Tapeteira, de Armando Alves, inaugurado em dezembro de 2001, lembra quem sustentou esta arte durante gerações: as mulheres de Arraiolos.
Em 2021, o processo de confeção do Tapete de Arraiolos foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e, em novembro de 2025, foi dado outro passo importante, com a emissão de despacho provisório de certificação do Tapete de Arraiolos como produto artesanal no âmbito do Sistema Nacional de Qualificação e Certificação de Produções Artesanais Tradicionais.

Talvez a melhor forma de conhecer Arraiolos seja, por isso, começar no castelo e acabar no centro da vila. Lá de cima percebe-se a razão do lugar. Cá em baixo percebe-se aquilo que os seus habitantes fizeram dele.

Rua alexandre Herculano

E depois de cruzar a praça do Município, visitar o centro interpretativo dos Tapetes há que agora explorar a Rua de Alexandre Herculano, conhecida pelos habitantes como a Rua dos Tapetes, entrar numa típica casa de ombreira baixa, olhar para uma bordadeira a trabalhar e reparar no movimento da agulha, para assim se entender como uma pequena vila alentejana acabou por dar o seu nome a um dos mais conhecidos artesanatos portugueses.


Gostou do texto? Deixe abaixo a sua reação e comentário... smiley


Ver também |

Educação é Urgente

Educação é Urgente

Sem Vergonha: Quando a Impulsividade Substitui o Pensamento

Sem Vergonha: Quando a Impulsividade Substitui o Pensamento

Pronto para embarcar na próxima aventura? Garanta seu alojamento com o Selo Draft World Magazine e descubra o mundo connosco!  Reserve agora