Livraria Lello: 120 anos de história no coração do Porto

Livraria Lello: 120 anos de história no coração do Porto

É uma das mais reconhecidas livrarias portuguesas à volta do mundo. A par da Biblioteca Joanina de Coimbra ou da biblioteca do Palácio-Convento de Mafra, a Livraria Lello é hoje um dos mais concorridos espaços da Invicta, fruto da história e estética do espaço e da sua recente conexão com o universo fantástico da saga de Harry Potter.

Cem anos não são idade para uma livraria. São, isso sim, uma prova de resistência, de permanência e de fidelidade a uma ideia quase subversiva no nosso tempo: a de que os livros continuam a ser lugares de encontro, templos de silêncio e de inquietação, casas onde o pensamento se abriga. Em 2026, a Livraria Lello assinala 120 anos desde a inauguração do edifício que a consagraria como uma das mais belas livrarias do mundo e, mais do que isso, como um dos símbolos culturais mais reconhecíveis da cidade do Porto.

Está para breve a classificação deste local como Património Nacional, um espaço que parece ter nascido com vocação para a resiliência e eternidade, lugar que soube conviver com tertúlias, diálogos literários, focos de contestação, entre a exuberância estética do seu entorno, premiada pela escadaria vermelha que parece flutuar. Importa não olvidar o majestoso vitral que derrama luz sobre as estantes, iluminando de forma natural um palco da vida intelectual portuense, onde se cruzaram editores, escritores, leitores e curiosos, num diálogo permanente entre o livro e a cidade.

A história da Livraria Lello não começa, porém, em 1906. As suas raízes recuam ao último quartel do século XIX, a um tempo em que o Porto afirmava o seu carácter burguês, empreendedor e culto. Em 1869, o francês Ernesto Chardron funda a Livraria Internacional na Rua dos Clérigos, tornando-se rapidamente um editor de referência, ligado à publicação de nomes maiores da literatura portuguesa, como Camilo Castelo Branco. Após a sua morte prematura, o negócio conheceria várias mãos, até que, em 1894, José Pinto de Sousa Lello adquire a antiga Livraria Chardron, associando-se ao irmão António Lello. Nascia então a firma que ficaria conhecida como Lello & Irmão, uma casa livreira conduzida por homens cultos, discretos e respeitados no meio portuense, conhecidos como os “irmãos unidos”.

A ambição dos irmãos Lello ia para além da simples venda de livros. Queriam criar um espaço à altura da dignidade do saber, um edifício que fosse, em si mesmo, uma declaração de princípios. Para tal, encomendaram o projeto ao engenheiro Francisco Xavier Esteves, figura singular do seu tempo, introdutor do cimento armado em Portugal e, mais tarde, primeiro presidente da Câmara Municipal do Porto no período republicano. Homem de letras e de ciência, Xavier Esteves concebeu um edifício que soube dialogar com a modernidade sem renunciar à memória.

A inauguração teve lugar a 13 de janeiro de 1906, no número 144 da Rua das Carmelitas. Foi um acontecimento social e cultural de enorme relevo, reunindo algumas das mais destacadas figuras da intelectualidade portuguesa: Guerra Junqueiro, Abel Botelho, João Grave, Aurélio da Paz dos Reis, José Leite de Vasconcelos ou Afonso Costa marcaram presença numa cerimónia que confirmou a livraria como novo epicentro da vida cultural da cidade .
Do ponto de vista arquitetónico, a Livraria Lello impõe-se como um dos mais emblemáticos edifícios do neogótico portuense. A fachada, de composição simétrica, é marcada por um grande arco abatido, ladeado por duas montras, que convida o transeunte a entrar. Sobre este conjunto, três janelas retangulares são enquadradas por figuras pintadas por José Bielman, alegorias da Arte e da Ciência, numa clara declaração do espírito que anima o edifício. A platibanda rendilhada, as pilastras encimadas por coruchéus e os vãos em arcaria conferem à fachada uma elegância revivalista, onde se cruzam referências neogóticas com subtis influências da arte nova e da arte déco.

Mas é no interior que a livraria revela plenamente a sua alma. O espaço organiza-se como uma grande sala nobre, dominada por estantes de madeira trabalhada, arcos quebrados e uma escadaria central de surpreendente audácia. Essa escadaria, pintada de um vermelho profundo, tornou-se ao longo do tempo o elemento mais icónico da Lello. Já em 1930, o catálogo da casa a descrevia como uma peça de “aparência de leveza que encobre a audácia da sua concepção”, despertando simultaneamente o desejo de subir e o receio de que o peso humano pudesse fazê-la ceder. 

Sobre as cabeças de leitores e turistas, o grande vitral, composto por 55 painéis de vidro, filtra a luz natural e ilumina o espaço com uma tonalidade quase sacral. Ao centro, o monograma da livraria e a divisa latina “Decus in Labore” lembram que ali o trabalho intelectual é entendido como dignidade e missão. Este vitral, da autoria do arquiteto holandês Gerardus Samuel van Krieken, foi desmontado pela primeira vez apenas em 2016, aquando de um profundo processo de restauro que devolveu ao espaço uma luminosidade há muito esquecida.

Os detalhes não se esgotam na arquitetura. Nos pilares, sob delicados baldaquinos rendilhados, o escultor Romão Júnior esculpiu os bustos de algumas das maiores figuras da literatura portuguesa: Antero de Quental, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga, Tomás Ribeiro e Guerra Junqueiro. São presenças silenciosas, quase tutelares, que parecem observar os leitores e lembrar que a Lello sempre foi mais do que um espaço comercial, assumindo-se como um verdadeiro panteão das letras.

Ao longo do século XX, a livraria atravessou mudanças de gestão, adaptações aos novos tempos e inevitáveis períodos de maior ou menor visibilidade, mas nunca perdeu o seu carácter identitário. Em 1995, já sob a designação simplificada de Livraria Lello, o espaço foi profundamente renovado, modernizando serviços, informatizando processos e criando uma galeria de arte e de tertúlia que reforçou o seu papel como polo cultural da cidade.

A projeção internacional, essa, conheceria um crescimento exponencial no início do século XXI. Guias e jornais de referência, como o The Guardian, a Lonely Planet, a Travel + Leisure ou a CNN, incluíram a Lello entre as livrarias mais belas do mundo, chegando mesmo a considerá-la a mais bonita em 2014. Depois, o boato de que J. K. Rowling se teria inspirado nos seus corredores para idealizar a saga do feiticeiro mais famoso dos tempos modernos fez o resto. Classificado como Imóvel de Interesse Público (em 2013), o espaço da Livraria Lello já há muito que ultrapassou a cifra de um milhão de visitantes num ano.


Fotografia | Fonte Livraria Lello


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