O Aquecimento Global e o Vinho
Tchim-tchim!
À Nossa!
De que forma o aquecimento global vai afetar a indústria do vinho?
As consequências do aquecimento global já não são novidade para ninguém, creio que por esta altura até já são ensinadas na escola. Não é a primeira vez que lê que o aumento da temperatura irá fomentar uma maior fusão dos lençóis de gelo e dos glaciares polares causando uma subida do nível da água do mar, levando a mais inundações e à erosão das zonas costeiras. Ou que as chuvas torrenciais e outros fenómenos meteorológicos extremos estão a tornar-se cada vez mais frequentes, encontrando-se não só na origem de inundações, mas também na diminuição da qualidade da água, e na redução da disponibilidade de recursos hídricos em algumas regiões do globo.
Situações graves que, embora conhecidas merecem toda a atenção, mas, hoje queria falar de algo que se calhar nunca lhe captou a atenção, algo que ainda não tinha pensado e que até faz sentido: O aquecimento global vai influenciar o vinho?
Desde os tempos mais remotos, o vinho tem vindo a desempenhar um papel de relevo transversal a quase todas as civilizações, originando lendas, sendo uma fonte de inspiração e de mitos, é uma bebida repleta de simbologia, conotada com a religião e com o misticismo.
Expressões como “néctar dos deuses”, “essência da vida”, “sangue de Cristo”, “fruto da videira e do trabalho do homem”, demonstram bem a importância desta bebida na cultura e vivências dos povos.
"O Vinho é uma prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes”
Benjamim Franklin
A vitivinicultura foi introduzida na Europa, de forma mais séria e organizada, no século III pelos romanos num período em que o planeta estava a aquecer. Desde então, ocorreram vários ciclos de calor (por exemplo no século VIII) e frio (século XIV).
Apesar de não haver certezas se a subida da temperatura que tem sido verificada é apenas cíclica e que poderá anteceder um período de arrefecimento do planeta, ou, se será uma tendência que veio para ficar, é importante refletir acerca do impacto das temperaturas no néctar dos deuses.
A videira é uma planta extremamente resistente, capaz de suportar uma grande amplitude térmica, adaptando-se facilmente. Mas, apesar de a planta conseguir resistir a temperaturas mais adversas, certamente irão ocorrer algumas mudanças nas propriedades, características e sabores das uvas, o que consequentemente se refletirá no vinho.
As temperaturas mais elevadas vão induzir uma maturação mais intensa das uvas e uma maior acumulação de açúcar no bago. A transformação de ácidos orgânicos em glucose e frutose, que ocorre no bago, irá acontecer de uma forma mais intensa e completa. Como consequência, os bagos de uva são mais doces e menos ácidos, o que acarreta um teor alcoólico mais elevado nos correspondentes vinhos
Os compostos fenólicos possuem grande importância no mundo da enologia, pois influenciam decisivamente a cor, o sabor, o aroma, a acidez, o corpo e a adstringência do vinho. A quantidade destes compostos nos vinhos varia de acordo com alguns fatores, como: clima, natureza do solo, variedade da uva, maturação da uva, maceração da uva, temperatura de fermentação, pH, dióxido de enxofre e etanol.
A maturação fenólica em uvas tintas é uma importante ferramenta de ajuda na decisão de vindima. Nas regiões mais quentes, caso do Alentejo, as temperaturas mais elevadas vão fomentar que este processo aconteça de forma precoce, levando a que o produtor opte por uma de duas soluções:
► Mantenha o momento da vindima, o que inevitavelmente originará vinhos com um nível de álcool maior.
► Antecipe as vindimas para evitar um grau de álcool excessivo, sendo que provavelmente o vinho irá manifestar sabores herbáceos, ter uma maior frescura ácida e uma cor menos intensa.
Seja qual for a decisão, o vinho não será o mesmo!
No Alentejo, a maioria dos enólogos tem optado por antecipar a data de vindima, é frequente nesta região, a vindima ser antecipada para a última (ou mesmo penúltima) semana de agosto, nos anos mais quentes. Isto constitui uma prática completamente nova em relação há duas décadas atrás, onde a vindima nunca acontecia antes do dia 1 de setembro.
Vários cientistas defendem que o aumento do teor alcoólico dos vinhos não parará de aumentar enquanto a Humanidade não conseguir controlar o fenómeno do aumento da temperatura atmosférica.
Nos últimos 30 anos tem-se constatado que, a nível mundial, o teor alcoólico médio dos vinhos tem aumentado. Entre 1971 e 2001 na Califórnia, o teor alcoólico médio aumentou de 12,5% para 14,8% em todas as castas. No Languedoc-Roussillion (França), o teor alcoólico médio aumentou de 11,2% para 12,9% de 1984 a 2006. Entre 1984 e 2008 na Austrália, o aumento nos vinhos tintos foi de 12,4% para 14,7% e nos brancos de 12,4% para 13,2%.
“Os vinhos de alta graduação alcoólica são como halterofilistas inchados por esteroides, vinhos aborrecidos, com pouca complexidade e sem qualquer interesse”
Hugh Johnson (um dos escritores de vinhos mais vendidos do mundo, autor de Pocket Wine Book anual e The World Atlas of Wine)
O aquecimento global também terá um lado positivo em regiões que por tradição tinham temperaturas muito baixas, o que criava uma dificuldade maior no processo de amadurecimento das uvas. Países como o Canadá e Inglaterra, USA (Michigan) possivelmente, no futuro, vão conseguir produzir vinhos de maior qualidade, beneficiando de uma maior consistência nas colheitas. Podemos até ver a aparição de novas regiões produtoras de vinho em lugares remotos, como a Suécia, Finlândia e Dinamarca.
Por outro lado, com as alterações climáticas, alguns estilos de vinho podem-se tornar mais difíceis de produzir, como por exemplo o delicado Kabinett (vinho Alemão leve e delicado com baixo teor alcoólico), ou mesmo o Eiswein (“Ice Wine”, produzidos com uvas congeladas na videira, vinho de sobremesa raro e equilibrado pela alta acidez, geralmente atingindo preços muito elevados).
Com a subida do nível dos oceanos, regiões vitivinícolas próximas do mar, como Pays Nantais na França, Colares, regiões baixas de Bordeaux sofrerão mudanças significativas ou, poderão mesmo enfrentar a extinção. Pelo sim pelo não vá armazenando umas garrafinhas em casa… Nunca se sabe!