O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda
O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda
O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda
O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda
O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda
O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda

O Senhor de Matosinhos: Entre a Fé e a Lenda

A Lenda e as festas do Senhor de Matosinhos...

É uma das maiores celebrações religiosas do norte de Portugal, com eco por toda a área metropolitana da cidade do Porto. A festa do Senhor de Matosinhos está envolta numa lenda de raízes profundas, que liga esta cidade de bom pescado às cidades de Ourense e Burgos.

A grande diferença entre o mito e a lenda é que o mito surge sempre como forma de explicação para os fenómenos que a Humanidade, ao longo da sua história e sobretudo em períodos de maiores trevas culturais, não conseguiu perceber; já a lenda tem sempre um fundo de verdade, isto é, personagens históricas que realmente existiram, lugares, eventos fantasiados que ao longo dos tempos se foram, como diz o provérbio, “aumentando” pontos.

A história desta publicação começa na Judeia, algum tempo após a crucificação de Cristo e momentos antes de Santiago partir para a Hispânia. Nicodemus (a tal personagem real que faz deste relato não ser um mito, mas sim uma lenda), um fariseu e membro do Sinédrio, defendeu Jesus diante dos restantes membros da assembleia judaica. Cedo se encantou pelos ensinamentos do “Salvador” e, no fim, ajudou José de Arimateia a retirar o corpo da cruz e a guardá-lo no sepulcro. Assim relata a história que atualmente se narra.

A lenda diz que Nicodemus era um exímio artista com a madeira e um escultor habilidoso.
Na ânsia de perpetuar na memória de todos os que “O” amaram e daqueles que um dia poderiam ser tocados pela “Sua” palavra, Nicodemus teve a ideia (ou inspiração divina) de esculpir, em madeira, imagem de Cristo crucificado. Quantas foram a história não grava, mas a lenda descreve: terão sido cinco.
Mas como é que três dessas supostas imagens vieram parar a lugares tão distantes como Burgos, Ourense ou Matosinhos? Ao que parece Santiago teve uma cota-parte de responsabilidade.
Ainda na esfera da lenda, a mesma diz que Nicodemus foi perseguido pelos judeus e romanos, assim como os Apóstolos, sobretudo os que eram mais próximos a Cristo: Pedro, João Evangelista e Santiago o Maior.
Um dia, o “Filho do Trovão”, assim lhe chamava Jesus terá dito a Nicodemus que deveria lançar as imagens ao mar para que estas não caíssem nas mãos dos judeus e com a esperança de que um dia pessoas crentes da nova fé pudessem resgatá-las das águas e erguerem altares condignos para as mesmas.

Às águas do norte da Hispânia foi o ícone que agora se guarda, desde o séc. XIX na capela do Santíssimo Cristo da Catedral de Burgos, libertado do mar por um mercador burgalês regressado da Flandres que a encontrou dentro de uma caixa e, chegado a casa, a entregou aos cónegos de Santo Agostinho. Dizem os locais que esta imagem é a mais fiel das cinco, já que esta está coberta de pele, o cabelo e as unhas são naturais e que a referida superfície capilar cresce, garantem!
A Finisterra “aportou” outra imagem, capturada desta feita por pescadores galegos, que no passado e ainda hoje é objeto de grande devoção para as gentes da Costa da Morte. A escultura crucificada, também coberta de pele, cabelos e unhas naturais e uma “barba” dourada conserva-se agora, desde o séc. XIV, na Capela do Santo Cristo na catedral ourensana, de evocação a S. Martinho de Tours.

O Bom Jesus de Bouças

Bom Jesus de Bouças

Bom Jesus de Bouças. A acompanhar as imagens de Nossa Senhor e S. João Evangelista (esquerda e direita respetivamente). Mais afastadas as imagens de Nicodemos (à esquerda) e José de Arimateia (à direita).

À praia de Matosinhos terá chegado supostamente a mais antiga das três, encontrada também por pescadores e camponeses que logo souberam erguer um templo para guardar tão viajeira relíquia.

Da variedade de imagens mencionada esta tinha duas particularidades: faltava-lhe um braço, perdido durante a tempestuosa viagem pelo “mare nostrum” e pelo “mare tenebrorum” até à costa matosinhense; a outra particularidade é que a imagem era oca e, segundo reza a lenda, Nicodemus terá guardado os instrumentos da paixão: a coroa de espinhos, os pregos, partes do madeiro da cruz original e até mesmo a placa “JNRJ” – Jesus de Nazaré Rei dos Judeus, ou ainda o Santo Sudário. E, claro, à semelhança dos exemplos anteriores, diziam as pessoas da terra que era a mais perfeita de todas as imagens alguma vez esculpidas do Senhor. 

No lugar onde a estatuária foi encontrada, ergueu-se, no séc. XVIII, um zimbório conhecido por vários nomes: “Senhor do Padrão”, “Senhor da Areia” e ainda “Senhor do Espinheiro”, um monumento  que ainda hoje pode ser apreciado.
Mas a história não termina aqui, como as gentes de Matosinhos e do norte do país bem sabem: certo dia uma habitante de Bouças que andava à apanha de lenha junto à praia deparou-se com um toro, diferente de todos os outros, mas sem nunca suspeitar que seria o braço que faltava da imagem do Bom Jesus de Bouças.

No momento em que acendeu a lareira e mandou para o fogo o madeiral encontrado, algo estranho aconteceu: o dito trangalho de formato estranho saltava sempre que a senhora o atirava para a lareira e foi na última das tentativas que um milagre aconteceu: a sua filha, que até então fora sempre, muda começou a falar, e de uma forma bem audível, diz a tradição, avisou a mãe de que o exemplo de madeira “irrequieto” era nada mais nada menos que o braço ausente do Senhor de Bouças.
A mulher acorreu a avisar a restante população e quando todos acudiram, incluindo o “cura” (padre) de Bouças, logo trataram de colocar o braço que faltava na escultura incompleta. E é como se nunca de lá se tivesse separado.

A Festa mais popular

Feira de Matosinhos

Celebrada 50 dias após a Páscoa, a Festa do Senhor de Matosinhos é hoje uma das maiores e mais emblemáticas festas populares de Portugal.
Durante vários dias, a cidade transforma-se num espaço de romaria e celebração coletiva, onde a fé e a tradição se cruzam com o espírito festivo e onde não faltam comes e bebes, concertos e até uma bem dotada feira de artesanato e produtos tradicionais.

Pontos altos da celebração são a noite do fogo-de-artifício monumental e a procissão solene, que percorre as principais artérias da cidade. É o culminar das evocações religiosas, reunindo milhares de fiéis e curiosos, acompanhada por bandas filarmónicas, figurantes e carros alegóricos imersos em flores. Particularmente bela é a tradição dos ramos de flores que adornam os altares da igreja barroca oitocentista (que teve mão do célebre arquiteto italiano Nicolau Nasoni) e os tapetes de pétalas que embelezam o percurso da procissão.
De origem ancestral, esta prática remonta às antigas romarias, quando os devotos cumpriam promessas depositando ex-votos, flores e ramos no templo do Senhor Bom Jesus de Bouças.


Fotografias de Artur Filipe dos Santos


Gostou do texto? Deixe abaixo a sua reação e comentário... smiley


Ver também |

Em tempos sombrios, resistir é um ato de humanidade

Em tempos sombrios, resistir é um ato de humanidade

Porto Modernista: A Praça D. João I como espelho de uma cidade em mudança
Porto Modernista: A Praça D. João I como espelho de uma cidade em mudança

Pronto para a próxima aventura? Escolhe alojamentos com o Selo Draft World Magazine e viaja com confiança! ✈️ Reserva já!