Quando Compostela atravessa o Atlântico
II Parte...
Quatro dias entre peregrinos, histórias, música, memória e amizade, num encontro onde o Caminho de Santiago mostrou que não conhece fronteiras.
Talvez por isso aqueles quatro dias tenham adquirido uma atmosfera tão particular, com o programa do XII ENAP a procurar, desde o início, um encontro com a memória e os vários sentidos da experiência peregrina.
Houve espaço para apresentar caminhos brasileiros, falar de investigação académica, história, património, espiritualidade e associativismo jacobeu: a medievalista Marta Cendón levou-nos até ao Pórtico da Glória da Catedral compostelana e ao olhar dos peregrinos medievais perante aquela extraordinária Bíblia esculpida em pedra; Manolo Garrido abordou a Via da Prata e o Caminho Moçárabe na província de Ourense; Juan Monterroso falou sobre o passado, o presente e o futuro de Santiago de Compostela enquanto cidade Património Mundial. Pelo meio, as associações brasileiras mostraram que o espírito peregrino há muito deixou de estar circunscrito às estradas europeias; a investigadora brasileira Renata Nascimento refletiu sobre a toponímia de Santiago em terras de Vera-Cruz.
E depois chegou um dos momentos mais aguardados do evento, com o final da tarde do segundo dia reservado à bênção dos peregrinos e à procissão de velas. Pouco depois, já a luz começava a desaparecer, centenas de pequenas flamas começaram a rasgar a noite missioneira. Assim foi a Procissão Tanarandy, uma caminhada cuja atmosfera fazia lembrar as grandes procissões marianas, inspirada na tradição de Tañarandy, no Paraguai, onde a Semana Santa leva milhares de pequenas luzes a desenhar um caminho na escuridão.
E desta vez as veladuras tiveram companhia, o som da gaita-de-fole, que tive o grato prazer de entoar, à medida que os peregrinos se assomavam das ruínas da jesuítica igreja de S. Miguel Arcanjo. E assim, a quase dez mil quilómetros da Galiza e do Norte de Portugal, aquele instrumento que durante séculos acompanhou festas, romarias e peregrinações do Noroeste peninsular começou a ouvir-se, quem sabe pela primeira vez, no silêncio da noite gaúcha. À frente seguiam as luzes. Atrás, peregrinos de diferentes lugares do Brasil. Pelo meio ecoava o bordão grave da gaita, num daqueles instantes em que as geografias parecem deixar de fazer sentido.

Fotografia | ENAP
No dia seguinte chegaria, inevitavelmente, a vez de subir ao palco, para a comunicação, intitulada “Os Caminhos Portugueses de Santiago: Património, História e Narrativas”, que resultou num esforço grato de apresentar ao público oriundo de quase todo o Brasil algumas das histórias que construíram ao longo dos séculos a identidade jacobeia portuguesa. O ponto de partida foi a tradição da passagem e pregação do Apóstolo Santiago pela antiga Hispânia e as narrativas relacionadas com os seus discípulos, entre eles São Pedro de Rates e o lendário Basileu. A partir daí seguimos caminhos, cruzámos pontes, entrámos em igrejas, revisitámos peregrinos (como a Rainha Santa Isabel, D. Manuel I ou Torres Villarroel), lendas e símbolos, até chegarmos ao cruzeiro do Senhor do Galo, em Barcelos, onde uma das mais conhecidas narrativas ligadas à peregrinação jacobeia portuguesa ganhou pedra, forma e memória.
A fechar com chave de ouro a exclusiva lista de comunicações, a sempre aguardada intervenção de Jorge Cáceres, um dos mais reconhecidos investigadores brasileiros no que ao Caminho Francês de Santiago diz respeito. O historiador nascido no Uruguai explorou a quase desconhecida travessia peregrina de Saint Jean Pied de Port a Roncesvalles pelas calçadas romanas, prendendo, como poucos, a atenção da exigente plateia.
Mas quem conhece verdadeiramente os encontros de peregrinos deste país-irmão sabe que aquilo que acontece entre as palestras é, muitas vezes, tão importante como aquilo que acontece dentro das mesmas. Os corredores, as pausas para café, os stands das associações e de livros, os almoços demorados, alguém que chega e diz “fiz o Caminho no ano tal”, outro que recorda uma noite em O Cebreiro, uma fotografia tirada em frente da Catedral, uma história de hospitalidade, uma bolha transformada em epopeia, um albergue impossível de esquecer, resultando num hino ao convívio entre gerações. É esta a natureza bela do Caminho, que possui esta capacidade peculiar de transformar desconhecidos em companheiros de jornada numa conversa de poucos minutos. E os amigos e amigas do Brasil sabem, como poucos, alimentar essa pureza e originalidade da experiência jacobeia.

Fotografia | ENAP
Na última noite havia ainda fogo para acender. Ou melhor: havia fogo que queríamos acender. Porque a tradicional queimada galega (que tantas vezes tive oportunidade de “teatralizar” nos mais diversos “rincones” do Caminho) resolveu colocar à prova a paciência dos presentes. Os ilustres europeus tinham saído do verão e aterrado diretamente no inverno gaúcho, sem sequer a delicadeza de uma passagem pelo outono. Nas noites de São Miguel o termómetro chegou a aproximar-se dos três graus e, naquela noite, o pote da queimada parecia ter assimilado toda a temperatura do Rio Grande do Sul, com o fogo sagrado a hesitar. Até que, finalmente, as pequenas chamas azuis começaram a vencer o frio e a espalhar-se, até que enfim, pela aguardente. A partir daí fez-se aquilo que deve ser feito numa verdadeira queimada: recitou-se o conxuro e deixou-se que o fogo cumprisse o seu trabalho, com palavras de desejo à medida que a labareda azul se elevava.
O ambiente festivo não impediu, contudo, um dos momentos mais comoventes do encontro. Pela manhã desse mesmo dia, Adriana Reis, presidente da ACASARGS, quis recordar uma peregrina recentemente falecida. Fê-lo com palavras simples e sentidas, diante de uma comunidade que sabe bem que o Caminho também é feito de ausências, cabendo-me acompanhar a homenagem ao som da gaita. Por alguns momentos, este temperamental instrumento deixou de convocar a festa para emprestar as suas notas à memória.
Adriana, refira-se para bem da memória contemporânea, transporta, aliás, um apelido profundamente ligado à dinâmica brasileira dos Caminhos de Santiago. É filha do saudoso jornalista e peregrino Sérgio Reis, que realizou o Caminho em 1992, autor de uma das obras mais marcantes da literatura jacobeia publicada no Brasil, O Caminho de Santiago – Uma Peregrinação ao Campo das Estrelas. Um livro que ajudou toda uma geração de brasileiros a imaginar as planícies de Castela, os montes da Galiza e a praça do Obradoiro, onde tantas viagens acabam e outras começam.
O programa terminaria com uma caminhada guiada até às ruínas de São Miguel Arcanjo, seguida da fotografia oficial e de um almoço num Centro de Tradições Gaúchas, acompanhado pela cultura musical de um Rio Grande do Sul que, durante quatro dias, nos recebera como se sempre tivéssemos pertencido àquela terra.
Quatro dias volvidos, era necessário voltar a atravessar uma vez mais o extenso “charco”, deixar o “sonho” para trás para regressar ao mundo real. Na mala regressaram livros, vieiras, fotografias e tantas lembranças gaúchas.

Há dois anos escrevi, depois do ENAP de São Paulo, que os participantes pareciam sentir-se órfãos no momento da despedida, como sucede tantas vezes quando chegamos ao fim de uma jornada épica. Em São Miguel transportei-me uma vez mais para essa sensação, a de que peregrinamos pela vida fora, como romeiros intemporais, palmeiros em busca da felicidade.
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