Voltar a ter pé: o regresso à humanidade

Voltar a ter pé: o regresso à humanidade

Imagine que perdeu o pé num oceano que se abre para um abismo de ruturas, de rapidez, de contradições, tensões, conflitos, ideias apocalípticas, guerra, caos, desumanização e transhumanismo. Com certeza é assolado por uma enorme angústia que rapidamente se transforma e transborda em ansiedade.

A incerteza, a insegurança e a instabilidade são ampliadas ao máximo, como se estivéssemos a ver e a sentir através da lente de um supermicroscópio. Este cenário orbita no mundo mental, num ambiente construído, representado, mas que vivemos como real. Psiquicamente, este ambiente assume a força de realidade, embora seja resultado do medo, do medo sem medida. Este medo foi crescendo, e não é inocente. Este é o medo que resulta da sementeira de medo, fruto do mediatismo que o lavra, cultiva e frutifica.

Não que a realidade concreta não se apresente com as suas urgências sociais, económicas, humanas e ambientais. As urgências são graves e reais, mas, mais do que tudo, trata-se de uma realidade que pede ação, mudança e transformação.

Nestes dias que vivemos, fomos assolados pelo medo que as notícias do descontrolo da Inteligência Artificial trouxeram. Apresenta-se-nos o medo de que ela, a IA, fuja do controlo humano. Hoje falamos da IA como se de uma entidade autónoma e à parte se tratasse, ou seja, falamos de um artefacto criado por nós, potencialmente dotado de liberdade e independência. Relacionamo-nos com ela como se esta tivesse a sua singularidade, a sua autonomia.

Quando o medo passa a ocupar o lugar da realidade

Perante o alarido, levanta-se uma grande nuvem de poeira que nos impede de ver, que nos tolhe o pensamento e inibe a ação. São as velhas estratégias de desinformação que alimentam o atual estado de desnorte da humanidade. Estratégias já bem identificadas, tais como a distração; a criação de problemas para depois oferecer as soluções (soluções pagas); a estratégia de se dirigir ao público como se de menores de idade se tratassem; o constante apelo à emoção em detrimento da razão; o esforço para manter as pessoas na ignorância e na mediocridade, o estímulo para que se deleitem com a mediania, a vulgaridade, com o entretenimento alienante, entre outras.

A IA é detida por grandes corporações, megaempresas com interesses económicos de controlo e domínio mundial. Ela é detida por humanos com rosto e nome, claramente responsabilizáveis pelo destino que lhe dão, quer pela sua ação quer pela sua inação. Estas empresas tornaram-se supranacionais, supraestatais, embora fortemente financiadas pelos Estados. Funcionam claramente sem margem e muitas vezes à margem. Isso sim, a ausência de limites, a inexistência de regulamentação, o clima de exceção face ao resto do mundo é que nos deveria preocupar.

Aqui, como noutros exemplos, regulamos a posteriori, claramente não tivemos a capacidade ou o interesse de agir em vez de reagir. Em vez disso, assistimos a uma propaganda massiva, a toda a hora, a todo o momento; o seu intuito é o de nos apresentar as maravilhas desta tecnologia. Ela é mais rápida, eficaz, eficiente e produtiva, ou seja, transmite-se a ideia de que o humano está obsoleto, que pode ser substituído por melhor. Portanto, é dispensável. Quem o diz e quem o determina? Essa é a questão.

A nova cama de Procusto

Esta métrica desumaniza-nos, coloca-nos perante uma nova cama de Procusto, que, tal como o bandido narrado pela mitologia grega, manipula, modifica as métricas para que tudo se ajuste à sua medida, para que tudo encaixe nos seus interesses.

Aliás, a propaganda vai nos dois sentidos opostos: o melhor dos mundos ou o caos. Isto gera desorientação e polarização das opiniões, que segue a velha máxima de dividir para reinar.

O problema não é, nem nunca foi, a tecnologia, mas o uso ou o abuso que fazemos dela. Ouvimos recorrentemente dizer que a tecnologia é neutra, não sejamos ingénuos. Para sermos intelectualmente sinceros, temos que considerar que o uso e a sua difusão obedecem a interesses humanos claramente parciais.

Hoje parece que não restam dúvidas de que existe a intenção de arquitetar um plano de desenvolvimento para uma nova “engenharia social” que escapa ao escrutínio das Instituições democráticas e reguladoras e que ignora a livre participação dos cidadãos.

Os Estados foram tomados de assalto por interesses particulares, foram capturados por objetivos corporativos dos quais fazem parte as grandes empresas oligárquicas que acumulam, dessa forma, um superpoder distante e oculto na penumbra dos corredores governamentais, longe da averiguação necessária e urgente.

Em relação ao uso, aos benefícios e aos prejuízos da IA, assistimos a uma tentativa de “fabricação do consenso”, pela anulação do diálogo e do livre debate, para que, dessa forma, se amuralhem outras possibilidades e se restrinjam outros horizontes possíveis.

O consenso molda-se pelos formadores de opinião que nos entram pelas telas adentro. Cria-se um estado de cansaço e saturação que impede a disponibilidade do cidadão comum para sentir e pensar. Entorpecer os sentidos sempre foi a primeira estratégia para a alienação.

Precisamos de partir o muro e seguir noutro rumo e de outro modo. Este modelo e projeto de humanidade está gasto, e o novo ainda está por vir. Urge inventar outro mundo (ordem social), uma sociedade em alternativa a esta. Uma sociedade humana, com rosto humano e humanizante, onde todos devemos e podemos participar. Necessitamos de um debate amplo, não restrito. Um debate no qual todos tenham lugar, onde todos possam participar para co-construir o destino futuro que nos seja comum, para que possamos articular o desenvolvimento local e o global.

No entanto, toda e qualquer tentativa para apresentar uma proposta alternativa é desvalorizada, ridicularizada e oprimida pela velha e conhecida voz de ordem: isto “é assim”, “tem de ser assim”, “não existe alternativa”. Este é o rosto do modelo único, unidimensional que nos é imposto à força, abusando e desrespeitando a liberdade dos cidadãos para poderem participar democraticamente nos destinos individuais e coletivos do planeta. As estratégias de bloqueio de uma humanidade livre, criativa e emancipada são vastas. Tratam-se de artimanhas que, segundo o psicanalista Wilhelm Reich, criam uma espécie de “peste emocional”.

Wilhelm Reich e a “peste emocional”

Wilhelm Reich foi um psicanalista, discípulo de Freud e criador embrionário das Psicoterapias Corporais. Reich utilizou os termos “peste emocional” e “Zé Ninguém” para explicar como as neuroses individuais resultantes de padrões de relação desenvolvimental castradores se transformam em patologias sociais em larga escala, culminando no consentimento e adesão a regimes autoritários como o fascismo. Na atualidade, o neo-fascismo e o tecno-fascismo.

O conceito de “Zé-Ninguém” (um pequeno nada que acha que é tudo) descreve um estado de banalidade e alheamento em que algumas pessoas se encontram. Trata-se de um estado onde predomina o medo da liberdade e a idealização do poder — o poder do grande outro. Existe um medo da vida e de tudo o que a vitaliza e liberta, e até mesmo um ataque à vida, daí a adesão à vigilância dos costumes e da moralidade (falsa).

Este estado atual do nosso modo de existência é terreno fértil para uma fascização da vida. Vivemos o tempo propício para que, se estivermos desatentos, possa surgir um “grande (pequeno) líder” que tem a solução — qual lobo em pele de cordeiro. O falso Messias caracteriza-se por fazer aquilo que não somos capazes de fazer por apatia, inércia e ressentimento, é aquele que amplia todas as nossas frustrações e que apresenta soluções benfazejas, disfarçadas pelos seus interesses e pelos daqueles que o acompanham.

Por seu lado, Reich relaciona a “peste emocional” com o estado de “Zé Ninguém”. Para o autor, o “Zé Ninguém” é o portador do mal: a “peste emocional”. Ela é uma doença social endémica, que o próprio, o “Zé Ninguém”, dissemina.

Wilhelm Reich definiu a peste emocional como uma forma de neurose que se manifesta na esfera pública e social através de comportamentos destrutivos ativos. Para o nosso autor, o “Zé Ninguém”, ao contrário de um neurótico comum, que sofre em silêncio ou se isola, este não vai por aí; como portador da peste emocional, sente a necessidade imperiosa de impor as suas limitações, preconceitos e repressões aos outros.

Como nasce a “peste emocional”

No passado como agora, há quem se interesse pela criação de “Zés Ninguém” como forma de sustentação e ascensão dos seus interesses. Pela crescente disseminação, urge saber identificar as características da “Peste Emocional”. A saber, esta caracteriza-se pelo seu carácter epidémico, pelo ataque à vida e pela racionalização da crueldade. Vejamos didaticamente cada uma destas características.

Carácter Epidémico: Propaga-se rapidamente através do pânico moral, do moralismo rígido e de ideologias totalitárias.

Ataque à Vida: Manifesta-se no ódio organizado contra minorias, na intolerância religiosa, no racismo, no puritanismo destrutivo e na sabotagem de reformas sociais necessárias e com sentido de progresso (especialmente na educação e nas relações humanas).

Racionalização da Crueldade: O portador da peste nunca admite a sua maldade. Ele mascara o seu sadismo sob o manto do “dever”, da “moralidade”, da “ordem”, da “proteção da família” ou da “segurança nacional”.

“Zé Ninguém” padece de submissão, servilismo, ressentimento e crueldade. Ele é incapaz de gerir a sua própria energia vital reprimida; por esse motivo, descarrega a sua frustração na sociedade através de atos lesivos aos outros e à vida. É uma verdadeira “peste emocional”. Não que as emoções sejam más em si, mas, desgovernadas, são danosas, são como um rio sem margens, transbordam. O que é necessário são outras margens de contenção para poder canalizar essa energia e colocá-la ao serviço da vida em si e com os outros.

A peste emocional cria leis, instituições e culturas autoritárias que forçam as novas gerações a tornarem-se novos “Zés Ninguém” e este é o problema. O pensamento de Wilhelm Reich continua com uma atualidade impressionante. Devemos relê-lo, estudá-lo, dialogar com ele para que novos horizontes se apresentem.

Voltar a ter pé: recuperar a liberdade

Reich faz um apelo à consciência do cidadão comum, fez um apelo a todos, pois todos temos um “Zé Ninguém” em potência dentro de nós. Através da sua proposta, que podemos transpor para os dias de hoje, ele faz-nos um apelo direto à honestidade, à autoanálise e à transformação e mudança. Propõe o abandono da ilusão, no que concerne à existência de um “Salvador” (existem uns quantos por aí). Isto exige que possamos deixar de projetar a responsabilidade da vida que nos é própria em ditadores, políticos ou figuras autoritárias.

Desafia-nos a enfrentar a própria pequenez. A reconhecer o medo que temos da liberdade e a trabalhar para superar o ressentimento e a inveja que alimentam a peste emocional. Em suma, só um ser humano livre de armaduras (couraças) e capaz de amar e trabalhar com prazer poderia, segundo ele, erradicar o perigo do totalitarismo, seja ele de que ordem for.

Imagino que o/a leitor/a veja e sinta familiaridade em tudo isto. Agora já podemos compreender e agir para que, no fim, possamos dizer com Wilhelm Reich: “Amor, trabalho e sabedoria são as fontes da nossa vida. Deviam também governá-la.”


Sugestões de Leitura |

► Reich, W. (1988). Escuta, Zé Ninguém! Editora Círculo de Leitores.
► Reich, W. (1978). A função do orgasmo. Publicações Dom Quixote.
► Reich, W. (1976). A psicologia de massas do fascismo. Publicações Dom Quixote.


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